E se num repente lhe saísse aquele prémio dos jogos da Santa Casa que diz criar excêntricos de um dia para outro? Aquele em que até os mais desafogados da nossa convivência diária apostam afanosamente, num desejo alarve? Ficaria seguramente feliz e realizado por poder experimentar o gosto de ter tudo aquilo que o dinheiro pode comprar. E depois? O dinheiro compra tudo?
Nas sociedades gizadas em torno do capital e do consumo, em que avultam a coisificação e a mercantilização das pessoas e dos seus anseios, desenha-se no Homem desde cedo a vontade de possuir algo e a sede de poder sobre o outro que o não tem, que se alimentam pelos desejos e pelos meios de cada um. As pessoas correm sofregamente atrás do dinheiro e das coisas e para onde quer que a gente se volte parece haver alguém à espreita para nos sacar algo. Nesta correria em busca de mais e mais dinheiro para comprar mais isto e mais aquilo até ao limite do absurdo, a excentricidade estéril acaba por tomar conta do vazio existencial que resta quando tudo se conquista. O que resta humanamente uma vez comprada a casa de muitos milhões de euros, o carro que custou outros tantos, as marcas famosas e exclusivas, os luxos inomináveis? Seria um exercício curioso podermos todos atingir esse patamar de riqueza e do poder do dinheiro para que se reflectisse verdadeiramente sobre o sentido da vida, a razão da nossa breve passagem pelo universo e, quem sabe, poder discernir a secundariedade dos bens materiais para a felicidade.
A natureza, e os seus desígnios imperscrutáveis que nos puseram aqui, é magnânima e justa, não só oferece bens e recursos suficientes para a satisfação das necessidades e a felicidade de todos, como se dá indistintamente nos seus atributos belos sem qualquer custo. O amor, a paixão, o sexo, a amizade, a formosura, a bondade de carácter são bens livres que não carecem ou escolhem condição social e económica e não custam dinheiro. A contemplação e a comunhão com o esplendor das coisas naturais, a ternura de um raio de sol, o afago de uma onda do mar, a cumplicidade de um bicho, são prerrogativas gratuitas e que nenhum poder pode tolher. O que é verdadeiramente essencial à vida não tem preço, não custa dinheiro, mas é preciso ter um prato, um tecto e um agasalho para o poder discernir e aceitar. Só o fulgor e o veneno do egoísmo humano é que distorcem a grandeza e a generosidade da natureza.
Em lugar da soberba, da ganância desvairada, da competição feroz em que as pessoas se esgaçam, da incansável obsessão pelo poder e o dinheiro, da predação do sangue e do suor dos irmãos da mesma carne e osso, envoltos nas mesmas carências e desejos, não seria mais consentâneo com a nossa essencial humanidade um rumo de partilha, de cooperação, de solidariedade e justiça, onde cada homem possuísse o seu quinhão de bem-estar?
Lírico e patético, dirão os materialistas, o dinheiro é a mola que move o mundo. Talvez. Mas sem a chama do lirismo, de um ideal de humanidade e de justiça, de uma qualquer utopia, de uma epifania de um homem compassivo, o Homem não teria alcançado os passos civilizacionais que já conquistou, apesar de tudo, e seguiria nas trevas. Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida e que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança, como disse Gedeão. Enquanto isto, os lobos continuam à espreita na sua alarvidade, numa putativa imortalidade que acabará no mesmo saquinho de cinzas. Só uma sociedade profundamente doente e humanamente enlouquecida, onde uma criança morre de fome em África enquanto alguém se exibe na Forbes, pode aceitar que o dinheiro é a medida de tudo.