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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

10/04/2026 07:30

O Rapaz fez dois amigos do peito, amigos a valer, no princípio dos anos 80 do século passado, quando andava no 7.º ano. Eram colegas de turma e os três não percebiam nada de Matemática, e também não percebiam nada de outras disciplinas, mas lá se iam aguentando.

Andavam sempre juntos – o Rapaz, o Fernandão e o Júlio – e faziam parte do grupo dos acanhados, dos tímidos, dos que ficavam vermelhos sempre que um professor lhes fazia perguntas ou pedia alguma coisa. Para agravar a situação, o Rapaz tinha um defeito na fala, que levou muitos anos a corrigir. Quando falava, algumas palavras (não todas, mas algumas) como que caíam num lago, emitiam um som de água, de corpo alado a nadar, e isso era motivo de gozo por parte dos colegas e até de alguns professores.

O Fernandão era baixo, carrancudo, escuro e infinitamente triste e muitos tinham medo dele por causa do seu aspeto, ao passo que o Júlio era alto, branco quase albino, mas com o cabelo preto, mesmo preto, e mostrava sempre um leve sorriso, um sorriso permanente e de certa forma pateta. Já o Rapaz era de tamanho vulgar e não tinha qualquer especialidade, tirando o defeito na fala.

Os três amigos possuíam, no entanto, um ótimo sentido de humor, muito dúctil e refinado, que funcionava como escudo contra o estado de pudor sempre latente que os perseguia.

Uma vez, a professora de História, a quem chamavam “Ventania”, devido aos seus penteados despenteados, explodiu no meio do Paleolítico, ou do Neolítico, ou lá do que estava a falar, por causa do frenesim dos alunos, e disse aos gritos:

– Prestem atenção! Isto parece papel de música, mas é muito importante para vocês perceberem que já foram macacos!

Um duro silêncio caiu sobre a turma e foi-se alongando, prolongando, esticando, até que, de repente, começou a ouvir-se uma musiquinha algures dentro da sala e era uma musiquinha de certa forma harmoniosa, ritmada, muito ténue. Ao princípio, ninguém deu importância, mas depois até a “Ventania” ficou intrigada.

– Que música é esta?

Os alunos olharam uns para os outros e a professora olhou para todos ao mesmo tempo. A música continuava, mas era impossível determinar a sua origem. Era uma música ao vivo, não provinha de nenhum aparelho, e ficaram a ouvi-la até ao fim da aula.

No intervalo, Júlio, orgulhoso, exibiu o instrumento que tinha concebido para dar música à professora de História: uma esferográfica Molin e um fio de náilon fininho esticado de ponta a ponta. Estava feito de tal forma que ele conseguia tocar enquanto escrevia, sem que ninguém desse conta. Riram-se os três.

Quando tinham aulas de manhã e à tarde, sentavam-se, à hora do almoço, numa das bancadas do ringue e comiam o farnel que tinham trazido de casa. Depois, ficavam a conversar e a confessar sonhos e pecados.

O Rapaz queria viajar para sítios estranhos e longínquos, como aquele de onde tinha vindo o Fernandão, que era retornado, e falava desse desejo com muito entusiasmo. Então, Fernandão aproveitava para narrar memórias da infância, que metiam sempre passeios no mato e cobras, sobretudo cobras gigantes.

Júlio olhava para os dois e dizia que eram loucos. Ele, o que queria era simplesmente acabar os estudos, o secundário basta, dizia, e depois arranjar um bom emprego, ou pelo menos um emprego seguro, que dê garantias, estão a ver?, como por exemplo na Câmara Municipal ou num banco, e depois casar-se com uma moça simples e bonita, ou mais ou menos bonita, dizia ele, não precisa ser cem por cento bonita, e ter um ou dois filhos, dois, seguramente, um casal, e passar as férias todos os anos no Porto Santo, que é onde está a melhor praia do Mundo, e começar a ficar velho assim mesmo, dizia ele, assim mesmo, estão a ver?

Depois, o Rapaz chumbou o 9.º ano, por causa da Matemática, e mudou de escola. Fernandão e Júlio passaram de classe e continuaram no mesmo estabelecimento, de modo que, a certa altura, o Rapaz perdeu-lhes o rasto. Nunca mais os encontrou, até hoje. Mas, às vezes, nas dobras dos anos, ainda se lembra deles. Imagina o Júlio como funcionário público, casado com uma mulher mais ou menos bonita e pai de família e vê o Fernandão sempre carrancudo, mergulhado na infinita tristeza de quem perdeu o lugar da infância, a contar histórias aos amigos sobre passeios no mato e cobras gigantes.

Quanto ao Rapaz, continua por aqui com os mesmos sonhos e – garanto-vos – ainda é um bom rapaz...

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