António fez 80 anos ontem. É um homem culto, abrasado pela lucidez. Já não se inquieta com a proximidade do fim que a sua idade espreita. Incendiou os últimos anos numa afanosa reflexão sobre a vida e a morte e já não lhe sobra o que lucubrar ou o que esperar. Martela-lhe o pensamento a sabedoria de Régio e revê-se singelamente no seu poema: ”(...) Hoje, é que nada espero. Para quê, esperar? Sei que já nada é meu senão se o não tiver; se quero, é só enquanto apenas quero; só de longe, e secreto, é que inda posso amar...E venha a morte quando Deus quiser. (...).” No seu desencanto, ao cruzar as ruas e os lugares, invade-o a impiedosa sensação de invisibilidade. A velhice vai tornando os homens invisíveis aos olhos dos outros. Aquilo que era uma pessoa inteira, digna de uma qualquer atenção e interesse, vai-se transmutando em gente com quem se esbarra, mas que se ignora, uma silhueta indiferente adjectivada só como um velho, um velho que passa. Agora é sempre noite na sua vida. Nos dias da noite, o seu corpo deambula pelas coisas como um autómato inervado pelos impulsos dos sentidos e as beliscadelas das maquinações das horas, sem que nelas entre verdadeiramente. Erigiu entre si e o mundo quotidiano uma espécie de cortina invisível que o separa de toda a fulguração lá de fora, que procura não trespassar, porque nada ali o empolga, não o apaixona, é-lhe sobretudo confrangedor. Deixa-se ir na torrente das futilidades, numa sucessiva reserva mental, como alguém previsível nos estereótipos do que se espera, no jogo comezinho do dia-a-dia que nada questiona, que faz de conta, do alheamento alegre e cínico, da impostura apressada das relações entre as pessoas.
Mas pelas noites da noite, ao sentar-se no seu recanto obscuro de solidão, onde conversa com o bichano interesseiro que ronrona no seu colo, a cortina rompe-se e o mundo cerca-o cruelmente. Espreita à janela. A cidade parece parada. As luzes melancólicas da rua alumiam trémulas e pachorrentas a sua inquietude. Ouve os sons do silêncio, entrecortados pelo ruido fugaz de um carro que logo o abandona, e tudo aparenta um adormecimento que agoniza o seu desassossego, o vento que sopra demais no seu pensamento. Conjectura num qualquer recanto da cidade morta gente que ri, que grita de prazer, gente alucinada pelo álcool, pela droga, gente a descansar saciada das trapacices da avidez humana e do lado de cá da vidraça de que se acerca assaltam-no as dúvidas, as inquietações, o infortúnio do pensamento e tudo o mortifica.
Cansa-o a previsibilidade e a mesquinhez das gentes e os seus desejos, a pulsão alucinada para as formas de poder, o interesse que está entre os homens e os bens, o domínio sobre as coisas e os outros, os egos inflamados da mediocridade, o orgulho de putativas supremacias e é tudo tão vão, tão vazio, tão humanamente inútil. Há uma correria geral insana que faz a vida girar insaciável, rumo a destino nenhum que engrandeça a pessoa humana e lhe dê algum sentido edificante, na breve passagem física pelo universo. Uma engrenagem de sofreguidão empoderada, onde tudo se coisifica, se converte em valor material e se vai alienando a raiz da existência. O sentido da vida que se assenta na estupidificação colectiva, na manipulação e atropelo das massas acríticas, embaladas em ritos e figurações de ocasião e no culto de gente e atitudes vazias e bastardas, sem qualquer elevação humanamente genuína, numa paz podre onde o Homem se perde de si mesmo. E vai remoendo as manigâncias do real na sua vidraça distante. E volta a Régio: “(...) Mas com isto, que têm as estrelas? Continuam brilhando, altas e belas.” A natureza, na sua perfeição e bondade, é indiferente às agruras e aos desvarios da alma humana.