Conheci uma pessoa que lia livros ao contrário. Não os segurava invertidos nem começava pela última página por distração. Fazia-o de propósito. Lia primeiro a frase final, depois o último capítulo, às vezes uma página solta a meio, como quem percorre uma casa desconhecida e vai acendendo luzes aleatórias antes de entrar verdadeiramente nela. Dizia que precisava de saber ao que ia. Que os finais lhe davam descanso. Na altura achei estranho. Quase uma pequena violência contra os livros. Durante anos ensinaram-nos que as histórias devem ser percorridas pela ordem certa: princípio, meio e fim. Como se a emoção obedecesse a linhas retas. Como se a vida obedecesse.
Hoje suspeito que quase todos lemos assim. Talvez não os livros, mas os dias. Há pessoas incapazes de começar um romance sem espreitar discretamente as últimas páginas. Outras procuram spoilers de filmes antes de os verem. Algumas fazem perguntas sobre o futuro como quem tenta negociar com a ansiedade: “achas que vai correr bem?”, “achas que ele volta?”, “achas que isto dura?”. No fundo, queremos todos a mesma coisa: sobreviver ao desconhecido.
O problema é que raramente permanecemos onde estamos. Enquanto maio acontece, já pensamos em agosto. Enquanto alguém nos fala, imaginamos o que responder. Enquanto uma coisa começa, preocupamo-nos imediatamente com a forma como termina. Há quem transforme a vida inteira numa antecipação contínua, como se existir fosse apenas preparar o próximo capítulo. Talvez por isso nos escape tanta coisa pequena. Os instantes não suportam ser vividos à pressa. Uma tarde morna na esplanada. O barulho de pratos numa cozinha ao longe. O cheiro de um livro antigo aquecido pelo sol. A gargalhada das crianças no parque. Certas felicidades só existem enquanto distração. No momento em que tentamos segurá-las, já passaram.
Lembrei-me daquela pessoa há poucos dias, quando encontrei um marcador preso a meio de um romance que abandonei no verão passado. Não me lembrava da história, apenas da sensação de o ler ao fim da tarde, numa varanda silenciosa, enquanto o calor entrava devagar pela casa. Percebi, então, que os livros talvez tenham uma vantagem sobre nós: mesmo quando os fechamos a meio, continuam pacientemente à espera da página seguinte. Nós não. Saltamos cenas. Vivemos diálogos futuros antes dos presentes. Sofremos antecipadamente por finais que talvez nunca aconteçam. Regressamos obsessivamente aos mesmos parágrafos antigos, como leitores incapazes de avançar.
Quase ninguém vive no parágrafo em que está. E, ainda assim, talvez haja alguma sabedoria escondida na lentidão das histórias. Os livros não revelam tudo de uma vez porque certas verdades só podem ser compreendidas no tempo certo. Uma personagem precisa de falhar antes de ser entendida. Uma ausência precisa de durar algumas páginas. Até a beleza de um final depende da demora do caminho.
Tenho aprendido a fazer isto: resistir ao impulso de correr para a última página. Aprender a permanecer no capítulo atual sem exigir respostas imediatas. Aceitar que nem tudo precisa de ser previsto para ser vivido.