A esperança de vida tem vindo a aumentar, principalmente nos países ditos desenvolvidos.
No entanto, esperança de vida não é o mesmo que envelhecer com qualidade de vida.
Muitas pessoas vivem muitos anos, mas, sem qualquer qualidade de vida devido a doenças ou às suas condições de vida. Durante muitos anos, envelhecer bem estava associado apenas à saúde; essa era a principal avaliação. Hoje, parece implicar outros fatores.
Um dia destes, num programa de televisão e num vídeo que se tornou viral, um homem disse, depois de ser questionado sobre a sua verdadeira idade:
— “A minha idade efetiva ou idade metabólica?”
Isto porque tinha mentido sobre a idade “biológica”. Acrescentou que a sua idade real apenas o médico e a família próxima a conheciam; nem os amigos presentes o sabiam. Ele tinha 76 anos, mas disse à produção do programa que tinha 66, porque essa era, segundo ele, a sua “idade metabólica”. Menos 10 anos.
Este homem apagou dez anos da sua vida devido a um cálculo feito por uma máquina ou porque tinha vergonha da idade? Idadismo?
No mesmo programa, perante a recusa e desagrado evidente da noiva em casar com ele (a regra era casar sem conhecer). Este homem reagiu falando da idade que ela aparentava ter. Disse que ela parecia muito mais velha, que tinha rugas, ela tinha mais de 60 anos.
Envelhecer é ter saúde ou temos também de ter uma “boa idade metabólica” e um bom aspeto?
A minha mãe, uma vez, viu uma fotografia sua e, espantada, colocou os óculos de perto para observar melhor. Manifestou surpresa pelas rugas que estavam marcadas na foto. Percebi, naquele momento, que vermos menos com a idade faz também com que nos vejamos menos a nós próprios, sobretudo nas rugas. Daí a surpresa dela ao ver-se através das lentes de uma máquina fotográfica.
Se calhar, porque devíamos ter outras coisas em que reparar em nós e nos outros.
A idade metabólica é algo que uma máquina calcula e que está também relacionada com peso e aparência. As rugas também são algo externo.
Já a saúde é algo sentido — física e psicologicamente — e nem sempre visível.
Telmo Baptista disse que “nunca tivemos um mundo em que nos comparássemos tanto”. Talvez com óculos de perto. Mas esta comparação parece estar direcionada sobretudo ao aspeto.
O aspeto físico, externo e superficial, tornou-se algo tão importante que a medicação para a diabetes é utilizada por pessoas que não são obesas nem diabéticas.
Há quem invista na pele, na aparência e no corpo para construir identidade. Bonito/a. Bem conservado/a.
Obviamente, a procura de elogio é algo básico e comum. Todos nós precisamos disso. Mas... e o resto?
Ao não vermos o interior do outro, ao repararmos apenas no aspeto, estamos também a evitar relações de verdadeira intimidade. Não há intimidade à superfície. Como vamos partilhar e viver as nossas tristezas, alegrias, zangas, raivas, rancores, preocupações e medos?
Sem relações ficamos mais vazios, o vazio vai aumentar os nossos medos e inseguranças. Na insegurança seremos sempre mais fúteis e superficiais. Menos interessantes?
O exterior pode ser importante e merecer cuidado, mas não pode ser só isso. Existe a pessoa, aquilo que sente, aquilo que viveu, o modo como esta numa relação connosco...
Será sempre nas relações de intimidade que nos formamos e envelhecemos com mais saúde.
“Os idosos guardam a sabedoria de um povo” Papa Leão XIV
“A beleza importa nos primeiros 15 minutos, depois você tem de ter algo para oferecer” Fernanda Montenegro