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Artigo de Opinião

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20/05/2026 07:35

Há febres que passam com Ben-u-ron. Outras ficam-nos no sangue para sempre. A febre dos cromos é uma dessas doenças doces, incuráveis, maravilhosas, que atacam primeiro na infância e regressam, anos depois, pela mão dos filhos.

Lembro-me de ser miúdo e de ir ao Snack Bar do Sr. Eurico ou à tabacaria ao pé da Casa da Luz, ao lado da Nova Esperança, comprar pela mão da minha mãe saquetas de cromos. Aquele ritual tinha qualquer coisa de sagrado. Não era apenas comprar papel. Era comprar expectativa. Era rasgar a saqueta com esperança, sentir o cheiro a cromo novo e acreditar que, finalmente, ali vinha “aquele” que faltava.

A minha primeira grande caderneta foi de futebol regional. E que mundo era aquele! Ali estavam clubes que hoje parecem quase lendas de uma Madeira que já não existe da mesma maneira: o Bom Sucesso, o Pátria, o Coruja e tantos outros nomes que talvez sobrevivam apenas na memória de alguns, guardados como relíquias num canto afetivo da infância.

Era uma caderneta fantástica. Quase a completei. Ainda hoje a tenho. Faltam-me dois ou três cromos. Dois ou três pequenos vazios que, curiosamente, a tornam ainda mais especial. Porque uma caderneta incompleta também conta uma história: a da procura, da troca, da esperança, da pequena frustração e da imensa alegria de cada conquista.

Depois vieram outras. Já mais tarde, empenhei-me em recuperar algumas dessas memórias. Uma delas foi a caderneta do Mundial de 1994, da Manil, com o mítico Maradona. Ainda não a concluí. Faltam-me 12 cromos. Doze. Parece pouco, mas quem faz cadernetas sabe que os últimos cromos são quase uma travessia no deserto.

Também completei as cadernetas do Dragon Ball. Naquele tempo ainda se escreviam cartas a pedir à Panini os cromos em falta. Cartas! Hoje parece quase arqueologia sentimental.

Durante muitos anos, deixei as cadernetas para trás. Nem me lembrava que existiam. A vida tem esta mania de nos empurrar para a frente. A infância ficou arrumada numa gaveta, juntamente com cromos repetidos, álbuns incompletos e memórias que julgamos esquecidas.

Mas os filhos têm uma capacidade extraordinária de nos devolver àquilo que fomos.

Desde que o meu filho mais velho nasceu, achei que devia fazer algumas cadernetas: Mundiais, Europeus, uma ou outra do campeonato nacional. Queria que os meus filhos tivessem uma recordação do ano em que nasceram, do primeiro Mundial, do primeiro Europeu, dessas datas que parecem banais no momento, mas que um dia ganham a força das coisas importantes. Felizmente, o primeiro Europeu que Portugal ganhou foi no ano seguinte ao nascimento do meu filho, e empenhei-me seriamente nessa caderneta.

Este ano, por pedido dele, comecei a caderneta do Mundial de 2026. Confesso: foi fácil convencer-me. Bastou aquele entusiasmo de criança e o argumento era fortíssimo: este pode ser o último Mundial da nossa maior lenda - Cristiano Ronaldo. E, mais importante ainda, será o Mundial que Portugal vai ganhar.

Sim, escrevo isto com a irresponsabilidade apaixonada de quem acredita. Porque fazer uma caderneta também é isso: acreditar antes dos outros. É colar jogadores como quem cola destinos. É olhar para uma seleção e ver não apenas nomes, mas promessas.

No domingo, dei por mim a percorrer várias tabacarias à procura de um jornal desportivo que trazia a caderneta. Uma peregrinação moderna, de balcão em balcão, sempre com a mesma resposta: “já veio e já foi”.

Foi impossível encontrar.

Felizmente, consegui comprar uma edição limitada no site da Panini. Apenas 5000 cadernetas. Uma daquelas coisas que nos fazem sentir, por momentos, que vencemos uma final nos penáltis. Agora resta esperar que venha de Itália e suportar o desespero do meu filho enquanto a caderneta não chega.

Entretanto, já compramos cromos. Claro. É o ritual de sentar à mesa, abrir saquetas, ordenar, separar repetidos, celebrar achados, lamentar ausências, discutir jogadores, sonhar com Portugal campeão e construir, cromo a cromo, uma memória que talvez um dia ele conte aos filhos dele. E ele levar para a escola para trocar com os amigos.

A febre dos cromos é isto. Não é só futebol. Não é só papel. É infância, pai e filhos, espera, memória. É Portugal campeão antes mesmo de entrar em campo.

E é, acima de tudo, esta certeza bonita: há coisas que julgamos ter deixado para trás, mas que estavam apenas à espera de que os nossos filhos nos dessem a mão para voltarmos lá.

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