Este artigo é escrito para todos aqueles que não percebem nada ou quase nada de mecânica automóvel, tão pouco se interessam pelo tema; para aqueles que pouco mais sabem do que trocar um pneu do carro e verificar o nível do óleo.
Perdoem-me os entendidos ou aquela malta dos grupos de Facebook, mas este artigo é escrito apenas para os totós (como eu)!
Como tudo na vida, às vezes é preciso dominar minimamente alguns temas, para não perecermos “ignorantes” – os tais totós - em algumas conversas de café, ou com a chegada do sol, aquelas tardes de calor passadas nas esplanadas da praia, acompanhadas por uma ou outra cervejola.
Mas atenção: Se conduzir não beba!
Muito falamos e discutimos hoje sobre a mobilidade elétrica, se um carro 100% elétrico é mais vantajoso que um a combustão, ou ter um híbrido, se devemos carregar a bateria a mais de 80% ou quanto fica o KWh em relação ao preço da gasolina. Não são dúvidas filosóficas, mas deixam-nos a pensar, tal é a dimensão das discussões que se assistem em relação ao tema, muitas delas, apenas com o propósito de justificar a nossa escolha pessoal ou, simplesmente, camuflar a incapacidade financeira de seguir as modas.
A verdade é que os carros elétricos já deixaram há muito de ser uma curiosidade futurista. Já não são apenas aqueles automóveis estranhos, silenciosos e caros que víamos nos vídeos americanos ou nos parques de estacionamento dos hotéis de luxo. Hoje, estão nas nossas estradas, nos rent-a-car, nos parques dos supermercados e até nos táxis. E a tendência é clara: vieram para ficar.
Mas, afinal, como funciona um carro elétrico?E a resposta até é surpreendentemente simples. Um carro elétrico é, no fundo, um automóvel com uma enorme bateria — parecida com a de um telemóvel, mas bem maior — que alimenta um motor elétrico. Não há mudanças tradicionais, não há óleo do motor, não há velas, nem embraiagem, nem aquele sem-fim de peças mecânicas que, normalmente, acabam por avariar quando menos jeito dá.
Aliás, uma das maiores vantagens do elétrico está precisamente aí: menos peças móveis, menos manutenção e menos desgaste mecânico. Um motor a combustão pode ter mais de duas mil peças em movimento. Um motor elétrico, dependendo da configuração, pode funcionar com menos de vinte componentes principais.
Depois entra a parte da bateria, que é onde começam as guerras religiosas da internet.
Há quem diga que as baterias duram pouco. Outros juram que ao fim de cinco anos o carro já não presta. E depois aparecem os vídeos dramáticos de incêndios e substituições milionárias. A realidade, felizmente, costuma ser menos cinematográfica.
Hoje, muitos fabricantes dão garantias de oito anos ou 160 mil quilómetros para as baterias. E os estudos mais recentes mostram que a degradação média anual ronda apenas os 1% a 2% em utilização normal. Ou seja, ao fim de dez anos, muitos veículos continuam com mais de 80% da capacidade original.
Claro que há cuidados importantes. E aqui entra aquela conversa dos 80%.Carregar diariamente até 100% não é o ideal para a saúde da bateria, especialmente em carregamentos lentos e constantes. O “ponto doce” costuma estar entre os 20% e os 80%, tal como acontece com muitos equipamentos eletrónicos que usamos todos os dias. Mas também não vale a pena viver obcecado com isso, como quem toma conta de um doente em estado crítico. O carro foi feito para ser usado.
Na Madeira, há ainda outra questão interessante: a nossa orografia.
Nós não vivemos em planícies intermináveis como muitas cidades europeias. Aqui sobe-se. E sobe-se muito. Há ruas no Funchal que desafiam a própria geometria, e isso muda bastante a experiência com um elétrico.
Por um lado, as subidas gastam mais bateria. Não há milagres. Puxar quase duas toneladas serra acima exige energia. Mas depois acontece algo curioso: nas descidas, muitos elétricos regeneram energia através da travagem regenerativa. Ou seja, o carro aproveita a desaceleração para recarregar parcialmente a bateria.
Há ganhos de autonomia consideráveis em percursos de descida entre por exemplo, o Pico do Areeiro e o Funchal. Não é magia. É física.
Aliás, em percursos urbanos e montanhosos, os elétricos até podem ter vantagens interessantes face aos carros tradicionais. Quem nunca sentiu o cheiro a travões queimados numa descida longa? Num elétrico, grande parte dessa travagem é feita pelo motor elétrico, reduzindo desgaste e aumentando eficiência.
Depois vem a questão que realmente interessa aos portugueses: o dinheiro. Porque todos gostamos muito do ambiente... até chegar a altura de pagar.
Em Portugal, o preço médio doméstico da eletricidade ronda atualmente os 0,20€ por kWh, dependendo da tarifa e do fornecedor. Um carro elétrico médio consome cerca de 15 a 18 kWh aos 100 km. Fazendo contas simples, percorrer 100 km pode custar entre 3€ e 4€. Num carro a gasolina moderno, o mesmo percurso facilmente ultrapassa os 9€ ou 10€, dependendo dos consumos.
Claro que isto muda completamente se carregarmos em postos rápidos públicos, onde os preços podem disparar bastante. Há pessoas que descobrem isso da pior maneira, depois da euforia inicial. Carregar rápido é cómodo, mas normalmente é mais caro. Muito mais.
E depois há outra realidade que raramente se fala: nem toda a gente tem condições ideais para ter um elétrico.
Quem mora numa moradia com garagem, painéis fotovoltaicos e uma wallbox vive quase no paraíso elétrico. Chega a casa, liga o carro como quem carrega um telemóvel e acorda com “depósito cheio”. Já quem vive em apartamentos antigos, sem estacionamento privado, pode transformar a experiência numa pequena aventura logística.
Também ainda existe alguma ansiedade da autonomia. O famoso “e se fico sem bateria?”. Mas, honestamente, quantas vezes alguém ficou sem gasolina porque se distraiu? O problema não é novo. Apenas mudou de formato.
A verdade é que a maioria das pessoas faz menos de 50 km por dia. E muitos elétricos modernos já ultrapassam facilmente os 350 ou 400 km reais de autonomia.
Depois existe o lado emocional da coisa.
Há quem adore o silêncio quase surreal de um elétrico. Outros sentem falta do barulho do motor, das mudanças, da vibração e daquela sensação “mecânica” do automóvel tradicional. E compreende-se. O automóvel sempre foi também emoção, personalidade e memória.
Os elétricos são diferentes. Mais suaves, mais instantâneos, quase demasiado perfeitos. Carregamos no acelerador e o binário aparece logo ali, sem hesitações. É estranho ao início. Depois entranha-se.
E talvez seja esse o verdadeiro choque desta mudança. Não é apenas trocar gasolina por eletricidade. É mudar hábitos, rotinas e até a forma como olhamos para o automóvel.
No meio de tudo isto, uma coisa parece certa: estamos numa fase de transição. Os elétricos vão continuar a evoluir, as baterias vão melhorar, os carregamentos serão mais rápidos e os preços, lentamente, tenderão a descer. Tal como aconteceu com os telemóveis, os computadores ou as televisões.
Por isso, da próxima vez que alguém começar uma conversa sobre carros elétricos numa mesa de café, já podemos participar sem parecermos completamente totós. Mesmo que, no fundo, continuemos a ser.