«Uma árvore sem raízes é apenas um pedaço de madeira»
Marco Pierre White
Em 1981, um jovem cozinheiro quase a completar 20 anos, com quatro anos de aprendizagem e experiência num hotel de Harrogate, North Yorkshire, sai à procura de novos desafios.
Filho de mãe italiana e de pai inglês, também cozinheiro, decide candidatar-se a uma posição como “commis” (uma espécie de chefe-júnior junto do chefe de estação nas maiores cozinhas, tipicamente com 12 estações). Consegue entrar no “Le Gavroche”, dos irmãos Albert e Michel Roux, recentemente estabelecido, que se confirmou como um dos melhores restaurantes de Londres durante três décadas e como o primeiro restaurante inglês a conquistar três estrelas Michelin.
Aos 25 anos, com experiência acumulada em mais três restaurantes de topo (La Tante Claire, Le Manoir e Chez Nico), Marco Pierre White decidiu abrir o seu próprio restaurante de cozinha francesa, o Harveys, onde rapidamente conquistou a sua primeira estrela Michelin; no ano seguinte, conquistou duas estrelas. Entre os seus protegidos da altura estão alguns nomes mundialmente reconhecidos, como Gordon Ramsay.
Aos 31 anos, em 1993, tornou-se “chef-patron” do restaurante com o seu nome, onde viria a consagrar-se como o mais jovem a alcançar três estrelas, tornando-se num dos primeiros “celebrity-chefs” ingleses.
Em dezembro de 1999, acabado de fazer 38 anos, cozinhou a última refeição para um cliente pagante. Decidiu devolver as estrelas, retirar-se da cozinha, dedicar-se mais à família e tornou-se proprietário de restaurantes e estrela de programas culinários, tais como Masterchef e Hell’s Kitchen.
Para explicar a influência das raízes familiares e culturais na sua busca por sabores simples e harmoniosos, em várias entrevistas e programas usou a expressão que abre esta crónica, atribuindo-a à sua mãe.
Esta semana dei por mim a refletir sobre ela em contextos muito diferentes, e sobre como, por vezes, quer individualmente, quer coletivamente, é fácil esquecermos as nossas raízes e perdermos a nossa alma, o que nos define.
Por exemplo, o Festival Eurovisão da Canção, surgiu há 70 anos, inspirado no Festival de Sanremo surgido no início dos anos 50 do século passado, em Itália.
Na mesma altura tinha acabado de se formar a União Europeia de Radiodifusão (em 1950), como forma de promover a colaboração transnacional e a transmissão transfronteiriça entre redes de televisão europeias. A II Guerra Mundial tinha acabado há menos de cinco anos e esta era mais uma estratégia para construir uma “Pax Europaea” assente na prosperidade e na cooperação internacional.
A origem deste programa baseia-se, por isso, numa estratégia de política internacional assente numa mistura da herança da “Pax Westfalica” do século XVII, que introduz o princípio do reconhecimento da igualdade entre estados-nação, com instrumentos de “Soft Power” para a promoção dos Direitos Humanos baseados na interação colaborativa como forma de promoção desse ideal de paz convivial.
É com base nestas raízes que, ao longo destas sete décadas, alguns países entraram, saíram ou foram excluídos do certame, entre os quais a mais recente foi a exclusão da Rússia pela invasão da Ucrânia, mesmo que o evento se queira autodefinir como apolítico.
Mas esta é a primeira vez que quatro países ficaram voluntariamente de fora, em protesto pela presença de um outro país que se comportou de maneira similar à da Rússia, ao iniciar uma operação contra os seus vizinhos, que algumas organizações internacionais insuspeitas consideram genocida.
Talvez seja a hora de revisitarmos as nossas raízes humanistas do pós-Guerra e da fundação da ONU, enquanto ainda nos lembramos de onde procurar.
Antes que nos tornemos apenas num pedaço de lenha.
Prontos a arder.