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Artigo de Opinião

Msc em Enfermagem Médico-Cirúrgica

14/05/2026 08:00

A construção do novo Hospital Central e Universitário da Madeira é, provavelmente, uma das decisões estruturantes mais relevantes para o futuro da saúde na Região. Pela sua dimensão, pelo investimento envolvido e pelo conceito KIWI que pretende implementar, esta não é uma obra; é uma mudança de paradigma. É uma oportunidade para repensar o modo como cuidamos e organizamos os serviços, como queremos responder às necessidades em saúde da população madeirense e de quem nos visita, hoje e nas próximas décadas.

Os dados disponíveis indicam uma área bruta de construção de cerca de 172.100 m² e uma capacidade máxima de 607 camas de internamento - números que têm gerado controvérsia. Mas a discussão não deve limitar-se às camas ou aos metros quadrados. Um hospital moderno não se define pela sua dimensão física. Define-se, essencialmente, pela capacidade de oferecer cuidados seguros, humanos, integrados e centrados nas pessoas.

A questão essencial é saber se a Madeira precisa apenas de um novo hospital ou também de uma reformulação no modelo de organização e gestão hospitalar. Durante muito tempo, os sistemas de saúde focaram-se na doença e no episódio agudo. A pessoa entra quando adoece, é tratada, tem alta e regressa a casa sem que exista verdadeira continuidade entre o hospital, os cuidados primários, os serviços sociais e a comunidade. Este modelo fragmentado e reativo está cada vez menos adequado perante o envelhecimento da população, associado às diversas doenças crónicas em idades cada vez mais jovens e às legítimas expectativas dos cidadãos que procuram este serviço no dia-a-dia. A própria Organização Mundial da Saúde tem defendido a necessidade de se evoluir de sistemas centrados nas instituições para sistemas integrados e centrados nas pessoas.

É aqui que o novo hospital pode representar uma verdadeira mudança. Se for apenas a substituição de um prédio por outro, será uma obra importante, mas incompleta. Se for uma oportunidade para redesenhar circuitos que permitam reforçar a segurança do doente e valorizar os profissionais e que permitam, de facto, aproximar o hospital da comunidade, então esta poderá ser uma conquista transformadora.

Por ser um hospital universitário, tem de ser mais do que um espaço assistencial. Tem de ser também um lugar de conhecimento, de investigação e de inovação. A designação “universitário” traz consigo uma responsabilidade acrescida, de aproximar a prática clínica da evidência científica e criar uma cultura em que a qualidade dos cuidados seja permanentemente avaliada e melhorada. Neste domínio, a segurança do doente deve ocupar um lugar central – enquanto forma de estar, presente no desenho dos espaços, nos processos, nas equipas, na gestão e na liderança.

Nenhum hospital é verdadeiramente moderno se os seus profissionais estiverem exaustos ou afastados das decisões. A tecnologia ajuda e os equipamentos são indispensáveis para algumas tarefas, mas quem cuida são os profissionais de saúde. E sem profissionais valorizados e envolvidos na governação clínica, qualquer infraestrutura corre o risco de ser apenas um edifício novo com problemas antigos. Importa, também, relembrar que a pressão sobre os hospitais não se resolve só dentro deles – é preciso olhar para a fase de antes da admissão e depois da alta. É preciso robustecer os cuidados primários, a rede de cuidados continuados, a rede de respostas comunitárias e a articulação social para resolver o desafio da sobrecarga dos serviços por pessoas com protelamento da alta hospitalar. Um hospital novo será tanto mais eficaz quanto melhor for a rede que o envolve.

A Madeira tem aqui uma oportunidade histórica de inaugurar uma nova cultura de saúde - menos fragmentada, menos reativa, mais preventiva, mais integrada e mais humana.

Talvez a pergunta mais importante não seja quantas camas terá o novo hospital, mas sim, que cuidado queremos que cada uma dessas camas represente?

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