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Artigo de Opinião

Consultor

10/05/2026 08:00

Embora muitas pessoas temam que a inteligência artificial (IA) venha um dia a substituí-las, existe uma aplicação tecnológica que já está a minar as condições no local de trabalho – o Bossware. O termo foi cunhado em 2020 pela Electronic Frontier Foundation, deriva das palavras “Boss” + “Software” e refere-se à tecnologia utilizada pelas chefias para vigiar os seus trabalhadores.

Segundo um memorando da National Labor Relations Board, que anunciava a intenção de proteger os trabalhadores contra práticas de monitorização eletrónica intrusivas, estas tecnologias incluem dispositivos vestíveis, câmaras com GPS, ferramentas que agregam o sentimento dos trabalhadores a partir de emails e redes sociais privadas, software de capturas de ecrã, fotografias da webcam, gravações de áudio e ainda “Keyloggers” – ferramentas que registam secretamente todas as teclas premidas pelo utilizador, incluindo palavras-passe.

Para Duarte Rolo, do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho, o Bossware é um episódio recente na longa história das técnicas de gestão que têm como objetivo controlar os trabalhadores, sendo uma espécie de capataz ou cronómetro virtual. Para Karen Levy, professora na Cornell University, a vigilância no local de trabalho existe desde que o trabalho existe, mas o avanço da IA permitiu monitorizar as pessoas de formas mais preditivas e detalhadas.

Nesta matéria, a lei portuguesa é das mais restritivas a nível europeu, proibindo o Bossware e admitindo exceções sobretudo quando a finalidade seja a proteção e segurança de pessoas e bens, como adverte Ricardo Henriques, sócio da Abreu Advogados, em declarações ao Expresso. Contudo, o sinal dos tempos tem apontado noutro sentido. Citando Pedro Garcia no mesmo artigo do Expresso, a gigante da banca norte-americana JP Morgan anunciou em março que iria começar a recolher dados informáticos dos seus quadros mais jovens. Já o The Guardian refere que a utilização de aplicações informáticas para controlar as atividades dos trabalhadores poderá ser alargada a todo o quadro de pessoal. Um estudo da Comissão Europeia de 2023 mostra que 12% das organizações em Espanha já recorrem a monitorização dos trabalhadores quanto ao seu uso de computadores, ao passo que 10% vigiam o envio de emails e chamadas telefónicas. No Reino Unido, dados de 2025 mostram que um terço das empresas vigia à distância os seus trabalhadores através de Bossware. Por fim, um estudo de 2025 da OCDE revela que 74% das entidades auscultadas usam pelo menos uma ferramenta digital de monitorização dos seus trabalhadores.

Embora o objetivo destas ferramentas seja tirar o máximo partido dos trabalhadores, os efeitos são opostos, sobrecarregando-os com tarefas não produtivas. Além disso, esta pressão insidiosa constitui um risco grave em termos de saúde e segurança ocupacional, com impacto psicológico negativo e potenciais lesões físicas. Como afirma Rob Reich, professor da Stanford University, os trabalhadores precisam de momentos de descanso fora do alcance das ferramentas de vigilância destinadas a aumentar a produtividade. A função da liderança não é apenas monitorizar a produção, mas criar motivação e adesão entre os membros da equipa para atingirem os seus objetivos. Ter de recorrer a ferramentas extrínsecas baseadas no medo é um sinal de que isso não está a acontecer.

Parafraseando Arianna Huffington: “Se precisas de Bossware para motivar os teus trabalhadores, o problema és tu, não os teus trabalhadores.”

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