MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Deputado

9/05/2026 08:00

Tenho sido confrontado, semana após semana, com um paradoxo que se torna cada vez mais difícil de “engolir”. O da Madeira que não se vê nos recordes... nos recordes do turismo, nos recordes das receitas fiscais e dos excedentes orçamentais que chegam a capas de (alguns) jornais, pintados como se de obras de arte se tratassem. Dizem que a Madeira acumula “cerca de 58 meses consecutivos” de expansão económica, e Miguel Albuquerque apresenta-nos indicadores macroeconómicos como se fossem medalhas... daquelas que, curiosamente, apenas ficam bem em certos fatos polidos, nunca no bolso de quem vai ao supermercado e hesita antes de pegar no carrinho.

Esta semana, fiquei genuinamente incrédulo. Quando o presidente do Governo Regional da “Região que se posiciona entre as regiões europeias com maior crescimento nas últimas três décadas” disse, com todas as letras, que não há financiamento disponível para avançar com obras estruturais na via expresso entre São Vicente e o Porto Moniz, uma estrada que há anos é fustigada por quedas de pedras, que já feriu pessoas, que coloca em perigo a vida de quem lá passa todos os dias, madeirenses e turistas. Como é possível que Albuquerque “lave as mãos” e remeta a solução para novas concessões? Com recordes de receita, não há dinheiro para proteger vidas no norte da ilha! Mas, para outras coisas, o dinheiro não tarda a aparecer.

Há 3 milhões de euros para impermeabilizar uma lagoa que serve um campo de golfe privado — o Palheiro Golf, no Funchal. Há mais de 10 milhões para ampliar o campo de golfe do Porto Santo. Há planos para o Faial e para a Ponta do Pargo. A ambição declarada do presidente é transformar a Madeira num destino de golfe com pelo menos cinco campos. Campos de golfe têm financiamento... se somados, aparentemente ultrapassam os 100 milhões de euros dos contribuintes. Já estradas que já provocaram fatalidades, aparentemente, não.

E depois há Washington. A Associação de Promoção da Madeira adjudicou um contrato de 449.420 euros acrescidos de IVA (mais de 500 mil euros no total) para organizar o evento ‘Toast to America’, previsto para junho, na residência do Embaixador de Portugal nos Estados Unidos. Cerca de 350 convidados, prova de vinhos, jantar de cinco horas, decoração, animação, atores, brindes e catering. E, como dinheiro nem é problema, foi incluída uma oferta institucional da Região a Donald Trump. Façamos as contas: mais de 1.400 euros por convidado, com dinheiro público.

Não consigo deixar de fazer a comparação. Meio milhão de euros para brindar em Washington, mas ficam cá os mais de 50 mil madeirenses que vivem em risco de pobreza. Fica cá a classe média asfixiada, a pagar rendas médias de 1.700 euros com salários que não chegam - quase o dobro do salário mínimo de 980 euros. Fica cá quem tenta comprar casa e encontra preços médios acima dos 600 mil euros. Fica cá quem tenta sobreviver com a inflação mais alta do país (há mais de dois anos consecutivos) a corroer o que sobra do salário na bomba de gasolina, na fatura da luz e no supermercado. Ficam cá as urgências a rebentar, os profissionais de saúde no limite, as famílias a fazer contas à vida no fim de cada mês. Nenhuma disponibilidade para resolver a estrada que ameaça quem vive no norte, nenhuma vontade de baixar o IVA para aliviar quem já não aguenta. Albuquerque tem recordes de receitas fiscais e recusa devolver um cêntimo ao consumidor. Chama a isso responsabilidade orçamental. Os madeirenses, cada vez mais, chamam de insensibilidade e alienação da realidade.

Diz o povo que o dinheiro vai para onde a vontade manda. E a vontade deste Governo está à vista de todos: campos de golfe, jantares de gala e contratos públicos para “inglês ver”. O resto — as estradas, o preço dos combustíveis, a habitação, a saúde, o custo de vida alarmante — essa é a Madeira que não cabe nos comunicados.

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