Como quase todos os portugueses da minha geração, cresci com Timor-Leste no coração. A causa timorense unia toda a gente da esquerda à direita, católicos, comunistas e até pessoas que normalmente só se indignavam com arbitragens contra o Benfica. Havia também um sentimento colectivo de culpa pela forma como Portugal abandonou Timor após o 25 de Abril.
Enquanto o país mergulhava no PREC, Lisboa esqueceu o território. O governador Lemos Pires dispunha de um pequeno contingente de oficiais e sargentos portugueses, mas os soldados eram forças locais timorenses, divididas entre simpatizantes da UDT e FRETILIN. Lemos Pires percebeu que não tinha meios reais para impor autoridade portuguesa sem correr o risco de transformar os próprios militares timorenses uns contra os outros. Sem reforços enviados de Portugal, as tropas portuguesas retiraram-se para a ilha de Ataúro, deixando um vazio de poder que abriu caminho à invasão indonésia.
O que se seguiu foi uma tragédia gigantesca. Estima-se que um terço da população timorense tenha morrido durante a ocupação, entre massacres, fome e repressão. Durante anos, o mundo fingiu não ver porque a Indonésia era importante geopoliticamente, o mais populoso país muçulmano e, como sempre, os princípios morais acabam atropelados pelos interesses.
Quando houve finalmente o referendo da independência, juntei-me às manifestações de solidariedade com o povo maubere. Recordo-me da emoção quando Xanana Gusmão veio a Portugal recebido quase como um herói nacional. Durante anos, Timor ocupou entre nós um espaço quase mítico.
Mas depois fui lá.
E a realidade revelou-se mais complexa do que o romantismo português imaginava.
Xanana já não era apenas o resistente lendário das montanhas. Tinha, entretanto, expulsado magistrados portugueses que ousaram investigar alegados casos de corrupção de alto nível. Era uma atitude pouco compatível com a imagem idealizada que muitos portugueses mantinham dele.
O maior choque, porém, foi perceber como a presença portuguesa era ténue. Ao contrário do que senti em Angola, Moçambique, Guiné Bissau ou São Tomé, não existia aquela familiaridade imediata feita de língua, humor ou referências comuns. O português era falado apenas por uma minoria, alguns mais velhos do tempo colonial e pessoas que estudaram em Portugal. O país era um fascinante cocktail linguístico. Nos jornais apareciam textos em tétum, português, inglês e bahasa indonésio, às vezes na mesma página.
A arquitectura colonial portuguesa praticamente desaparecera, muito destruída pelas milícias pró-Indonésia após o referendo. Restava pouco da imagem lusotropical que tantos portugueses imaginam encontrar.
Mas Timor compensava isso com uma beleza extraordinária. Praias lindíssimas, montanhas verdes e pores-do-sol com cores violentas, daqueles que obrigam qualquer pessoa a ficar calada a olhar para o horizonte. O mar era fabuloso, com corais junto à costa, peixes por todo o lado e uma água cristalina. Foi em Ataúro que vi pela primeira vez um tubarão, experiência inesquecível embora pouco relaxante.
E havia os crocodilos de água salgada. Em Timor, qualquer mergulhador desenvolve rapidamente visão de 360 graus, não vá um desses monstros pré-históricos decidir que um português distraído combina bem com arroz.
Também senti alguma distância humana. Os timorenses pareceram-me mais reservados, introvertidos e difíceis de decifrar do que os africanos lusófonos, ao que podemos acrescentar a barreira da língua. Claro que décadas de ocupação brutal deixam marcas profundas. Percebia-se que era um povo duro, resistente e habituado à sobrevivência.
Timor ensinou-me uma coisa importante: os povos irmãos existem mais facilmente nos discursos emocionados do que na realidade concreta. E talvez isso seja saudável. Porque Timor não é uma extensão exótica de Portugal. É um país asiático, complexo, marcado pela dor, orgulhoso da sua identidade e profundamente diferente de nós. Talvez seja precisamente isso que o torna tão fascinante.