Facadas e Fumo dos Ossos trabalhavam no submundo desde miúdos e já tinham percorrido as três províncias do norte do país em serviço. Recebiam instruções, executavam assaltos, entregavam o produto furtado aos cabecilhas e ganhavam à comissão. Normalmente, os líderes destas pequenas máfias, espalhadas por todo o território, eram comandantes distritais da Polícia, mas, nalguns casos, também havia presidentes de autarquias, padres, sobretudo católicos, e empresários de sucesso envolvidos. O esquema funcionava às mil maravilhas e aqueles dois eram considerados os melhores operacionais, conhecidos em toda a região. Volta e meia, passavam uma temporada na cadeia, só para disfarçar, mas, como estavam feitos com as autoridades, deixavam-nos sair à noite para prosseguir o trabalho à vontade.
Tinham ambos 20 anos e estavam outra vez presos por uma questão de aparência, devido a um assalto mal sucedido a uma loja no centro da cidade, engendrado pelo Comandante da Polícia. Ele queria muito um candeeiro que lá havia à venda – ou melhor, a mulher é que queria o maldito candeeiro –, mas custava uma fortuna, muito acima das suas posses. A coisa correu mal porque Facadas e Fumo dos Ossos embebedaram-se no dia do assalto. Fizeram um espalhafato do caraças e foram imobilizados à porta da loja por um grupo de populares. O candeeiro, esse, ficou todo estraçalhado.
Facadas não é nome, é alcunha, por causa de duas facadas que ele deu num tio com quem vivia, quando tinha 11 anos, uma na barriga, outra na nádega direita, por este ter comido a sua parte de xima ao almoço. O tio ficou três meses no hospital e depois chutou-o de casa. Facadas passou a viver na rua. O seu verdadeiro nome é Hermenegildo Bettencourt, um rapaz baixo e magrinho, que, visto ao longe, faz lembrar uma ave negra, talvez um corvo.
Já Fumo dos Ossos é mesmo Fumo dos Ossos, nome de documento. Mas ele não tem documentos. É órfão de tudo desde que tomou consciência de si. Andou sempre à toa na vida, roubando aqui, aldrabando ali, tudo fazendo aqui e ali. É dois palmos mais alto do que o Facadas e bastante robusto. Às vezes, em certas posições, fica parecido com um gorila cheio de majestade.
Caminhavam agora lado a lado, perplexos com a atitude do Comandante da Polícia, que os mandara soltar em pleno dia.
– Sim, aquele filho da puta vai-nos lixar! – Disse Facadas.
– Só pode, mano – retorquiu Fumo dos Ossos. – Serviço durante o dia não é normal.
Avançaram um pouco mais rumo ao centro da cidade e, ao atravessarem a Estrada Nacional, depararam-se com um camião, carregado de pessoas na carroçaria, que seguia na direção da fronteira.
– O melhor é a gente bazar – insistiu Fumo dos Ossos.
– Tens razão – disse Facadas. – Vamos bazar, mano.
E subiram no camião.
Naquele momento, o Comandante da Polícia achava-se num mundo onde não havia nada, nem tempo, nem espaço, nem movimento, nem sequer pensamento, de modo que, a certa altura, começou a pairar no vazio do gabinete, sempre com o boné imponente enfiado na cabeça, até que, de repente, ouviu uma voz e a voz disse-lhe:
– Tinhas dois suspeitos ideais na mão e deixaste-os fugir. És mesmo estúpido!
Então, fez-se puff e ele apareceu inteirinho sentado à secretária.
O telefone tocou.
Ele atendeu:
– Sim, excelência... Estamos a investigar... Sim, excelência... Não se preocupe... Sim, excelência... O branco e o preto... Sim, excelência... O estrangeiro e o postulante... Sim, excelência... Até ao final da semana... Sim, excelência... No meio do mato, com cobras e mosquitos... Sim, excelência...
Ao desligar, o Comandante da Polícia regressou à realidade. Sabia que era tarde de mais para envolver o Facadas e o Fumo dos Ossos no seu plano, pois eram espertos e já teriam percebido que ele os queria lixar, responsabilizando-os pelas mortes do estrangeiro branco e do postulante negro. Sobrava-lhe a mulher. No fundo, a culpa era dela.
– Aquela cabra lançou-me um feitiço – insistiu de si para si.
Nisto, sentiu uma fome dos diabos e decidiu sair para almoçar. Antes, porém, tirou o boné e colocou-o num gancho na porta do gabinete. A cabeça ficou-lhe subitamente aliviada de todos os tormentos.