O calendário das efemérides indica 9 de maio como Dia da Europa, com natural enquadramento e contexto. De forma mais ou menos tímida, notamos como as organizações se preparam para assinalar a data. As escolas abordam o tema. As instituições mais ligadas às políticas europeias também. Mas tudo parece feito para cumprir calendário. Para ninguém dizer que não se fez nada. E tudo isso, mesmo que seja muito, acaba por saber a pouco. A muito pouco. Salva-se, nesta lista, o esforço do eurodeputado Sérgio Gonçalves – atualmente o único da Madeira -, que mantém as conferências e outros eventos e ainda dá nota pública do que é a sua ação no Parlamento Europeu. Tirando essa exceção, a falta de entusiasmo tem uma leitura que parece óbvia: ainda nos falta ganhar cidadania europeia. Continuamos a sentir a Europa lá longe, representada por comissões distantes e feita de parlamentos gigantes em Bruxelas e Estrasburgo.
Outra ideia que persiste da Europa, 40 anos depois da integração na União Europeia, é a de uma instituição rica que nos manda dinheiro a rodos sob a forma de programas mais ou menos criativos que servem para transferir milhões.
Esta é a imagem que ainda persiste. E é um retrato triste e mal-amanhado. É uma perceção claramente desfocada.
A Europa que devemos festejar hoje não é só dos franceses, dos alemães ou dos espanhóis. É também dos portugueses, dos madeirenses que vivem no Funchal, nas Achadas da Cruz, no Lombo Grande ou na Lapeira.
A Europa está aqui onde nos cruzamos, no chão que pisamos, no modelo de desenvolvimento económico e social que escolhemos. É isso que falta criar. Esse espírito europeu que ainda não encaramos e muito menos o acolhemos como nossa condição. Somos europeus distantes do centro da Europa, somos insulares, somos das ultraperiferias. Mas isso não nos retira direitos nem nos diminui.
Desde as primeiras eleições para o Parlamento Europeu que se ouve falar da cidadania europeia. Falta cumprir esse desígnio, diziam e dizem os eurodeputados. Mas sem grande êxito.
Na verdade, nestes 40 anos ganharam-se milhões em fundos europeus, mas perdeu-se uma oportunidade de fazer sentir a Europa como algo nosso.
Muito friamente, esta geração parece claramente arredada desse espírito e pouco mais haverá a fazer além dos esforços que foram aplicados por todos os eurodeputados madeirenses, assim como os nacionais ou todos os que estão ligados ao processo europeu como o conhecemos hoje.
Sendo assim, talvez esteja na hora de reconhecermos essa derrota coletiva. Não se conseguiu, de facto, criar a ideia de que a Europa também mora aqui.
Mas se esta geração se perdeu, outras podem e devem agarrar a oportunidade. A que sai agora das escolas secundárias tem um caminho completamente diferente. Tem mundo para ganhar, tem a Europa para conhecer e dá sinais de querer agarrar a oportunidade que os mais velhos desperdiçaram.
Para esse ganho geracional contribuem vários fatores, mas há um programa em especial que vai plantando a semente da cidadania europeia em milhares de jovens alunos madeirenses. Falamos do programa Erasmus+ e das iniciativas a ele associadas.
À conta desses projetos várias ideias foram desenvolvidas em escolas e em outras instituições sociais em áreas muito diferentes, mas que passam essencialmente pela valorização do espaço europeu, da cidadania e da partilha de experiências.
O intercâmbio permitido a tantos jovens estudantes, a docentes, a funcionários e a representantes de instituições fora da esfera do ensino tem permitido uma verdadeira troca de saberes.
Esses sim, começam a assimilar a ideia de que a Europa também é aqui. Também somos nós. Também se cumpre na nossa terra. Pelas experiências que há mais de um ano partilhamos todas as semanas nas páginas do Jornal, nas ondas da rádio e em formato podcast, arriscamos afirmar que, para quem participa ou beneficia de ações no âmbito do Erasmus+, hoje é um Dia da Europa igual a tantos outros.
A Europa é todos os dias. E também é aqui.