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Artigo de Opinião

Comunicação - Assuntos da UE

13/05/2026 08:00

Estou na Madeira e encontrei-me esta semana com uma amiga para um café. Não era um encontro leve, nem daqueles em que se fala da vida entre risos e distrações, em que tentamos resumir numa hora e meia os últimos meses desta a última vez em que nos vimos. Não, este encontro foi diferente. O avô dela morreu na semana passada e eu estava ali apenas para a ouvir.

Ela é madeirense, nasceu e cresceu aqui, mas trabalha há vários anos como enfermeira no NHS, o Serviço Nacional de Saúde no Reino Unido. Está habituada a hospitais. À pressão, aos limites da medicina, ao barulho das máquinas. Está habituada à morte. Talvez por isso o que viveu aqui lhe tenha custado ainda mais a compreender.

Falou-me do avô. Um homem de 95 anos, conhecido no Porto Santo pelos presépios e lapinhas que fazia todos os anos para celebrar a Festa. Daqueles homens que parecem fazer parte da memória coletiva de uma terra. Foi transportado de urgência para o Hospital Dr. Nélio Mendonça, intubado, com um prognóstico muito reservado.

A família sabia que provavelmente estava a viver os últimos dias com ele. E fez aquilo que qualquer família faria. Ela e o tio apanharam o primeiro voo de Londres para a Madeira. Mas depois veio outra realidade.

Na Sala de Observação, porque não havia espaço nos cuidados intensivos segundo lhes disseram, apenas eram permitidas duas visitas de 30 minutos por dia. Um familiar de cada vez. Tentei imaginar o que isso significa na prática. Não em teoria. Na prática.

Significa uma família a trocar de lugar num corredor para conseguir cinco minutos com alguém que pode morrer a qualquer momento. Significa olhar para o relógio enquanto se segura a mão de um avô. Significa sair da sala sem saber se aquela foi a última vez.

E o mais difícil, contou-me ela, é que houve um período de lucidez. Depois da extubação, o avô esteve consciente durante cerca de 36 horas. Reconhecia as pessoas, falava, percebia quem estava ao lado dele. Ainda havia tempo para conversas. Para despedidas, para presença. E em muitas dessas 36 horas de lucidez, o avô esteve sozinho devido ao horário de visitas.

Não houve flexibilidade. Mesmo sabendo que aquele homem estava em fim de vida, não permitiram mais tempo. Nem duas pessoas juntas em muitos dos momentos. Nem um pouco mais de humanidade numa situação que já era, por si só, devastadora.

E houve uma imagem que não me saiu da cabeça enquanto a ouvia. A família à porta do quarto, de pé, à espera que a porta abrisse para não perder um segundo que fosse. Como se o amor pudesse funcionar por senhas. Como se o adeus de uma família pudesse caber num horário rígido.

Ela contou-me também que, durante aqueles dias, foi falando com outras famílias na mesma situação, pessoas diferentes, histórias diferentes, mas exatamente a mesma sensação de impotência. A mesma mágoa.

O que mais me marcou nem foi a revolta. Foi uma frase simples que ela disse a certa altura: “Roubaram-nos tempo.” E acho que é exatamente isso.

Quando alguém está a morrer, o tempo muda de valor. Cinco minutos deixam de ser apenas cinco minutos. Podem ser a última conversa lúcida, o último abraço, a última oportunidade de dizer aquilo que vai ficar por dizer para sempre.

Claro que os hospitais precisam de regras. Claro que os profissionais trabalham sob pressão e muitas vezes sem os recursos ideais. Mas há uma diferença entre organização e desumanização. Uma pessoa em fim de vida devia poder ter a família por perto durante mais tempo. E uma família devia poder despedir-se sem sentir que esteve a negociar minutos com o relógio.

No Reino Unido, familiares de pessoas em fim de vida podem pernoitar no hospital com os seus entes queridos, contava-me a minha amiga. Tudo para que se ganhe um pouco da corrida contra o tempo. Porque há dores que já ninguém consegue evitar. Mas há outras que não deviam ser acrescentadas no fim.

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