A União Europeia (UE) pediu a Caracas que liberte todos os presos políticos, em particular os europeus, numa altura em que estarão detidas na Venezuela 667 pessoas por motivos políticos, entre eles cinco portugueses.
“Esperamos que o processo de libertação de presos e a aplicação da Lei de Amnistia, com especial atenção também aos nossos concidadãos, avancem com determinação e grande generosidade, com aquela generosidade de coração que caracteriza os venezuelanos”, disse a chefe da delegação da UE na Venezuela.
Embora Maria Antónia Calvo Puerta não tenha usado a expressão “presos políticos”, a Lei da Amnistia, aprovada pela presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, em fevereiro, tem como objetivo libertar os presos políticos.
De acordo com a organização não governamental Justiça, Encontro e Perdão estão presas na Venezuela 667 pessoas por motivos políticos, entre eles cinco cidadãos portugueses.
Calvo Puerta falava durante a celebração do Dia da Europa na Venezuela, que reuniu centenas de convidados, entre eles diplomatas de Portugal, de outros países europeus, e representantes das autoridades locais, incluindo o presidente da Comissão Especial de Acompanhamento da Lei de Amnistia, Jorge Arreaza, e a nova provedora de justiça, Eglée González Lobato.
“A Venezuela entrou numa fase de mudança, mas também numa fase de grandes oportunidades. Enquanto parceiros construtivos que somos, queremos acompanhar este processo porque acreditamos neste país”, sublinhou.
A diplomata explicou que a UE tem dado ajuda humanitária à Venezuela e prestado apoio à sociedade civil no acesso a serviços básicos, sublinhando que no país estão também empresas e empresários europeus, outros parceiros doadores e instituições bancárias.
Calvo Puerta explicou ainda que, mediante iniciativas como a Global Gateway, a UE procura criar ligações sustentáveis que beneficiem as sociedades europeias e venezuelana.
“Mas para que a prosperidade chegue realmente a todos os cidadãos, precisamos de gerar confiança. A confiança de queremos resolver este conflito em paz, de que nos queremos reconciliar”, frisou.
Recordando o escritor austríaco Stefan Zweig, “um europeu que conheceu muito bem a nostalgia do exílio”, vincou que “há muitos venezuelanos que hoje não puderam estar” naquela celebração.
“A paz não é apenas a ausência de guerra, mas uma virtude que nasce da força da alma, disse.
Calvo Puerta frisou ainda que essa força está presente nos venezuelanos que lutam pelo seu país e em cada europeu que, apesar de todas as dificuldades, continua a apostar na Venezuela.
“Percorremos [na Venezuela] um caminho que outros já percorreram antes. Não se enganem. A história da Europa ensina-nos que a reconciliação é possível, mesmo após muita dor, se houver a vontade de nos tornarmos pontes entre aqueles que se distanciam”, frisou.
A diplomata instou a “não construir muros”, mas “pontes com quem pensa e sente diferente”, porque a grande riqueza de um país é que todos contribuam a partir do seu ponto de vista.
“Peço-vos que continuemos, europeus e venezuelanos, a construir uma solidariedade de facto com o espírito de quem sabe que, embora o caminho seja longo, não se está sozinho ao percorrê-lo e que a Europa está aqui, esteve no passado e continuará na Venezuela”, disse.
A diplomata explicou que há mais de um milhão de venezuelanos radicados na Europa e que muitas coisas unem um lado ao outro do mar atlântico.
Calvo Puerta frisou ainda que a Europa homenageia os venezuelanos, através da campanha “Resolve”, pela capacidade de resolver perante as dificuldades e encontrar a solução.
“Esta capacidade de transformação é a mesma que permitiu à Europa renascer das cinzas após a guerra. Nós também tivemos de aprender a resolver, a reconciliar-nos, a procurar novos caminhos, porque queríamos construir um futuro de paz e prosperidade”, disse.
Em nome da UE reafirmou os seus princípios inabaláveis, o respeito absoluto pela soberania e pela integridade territorial, e a defesa da democracia como único caminho legítimo para a coexistência, assim como a proteção dos direitos humanos para além de qualquer cor política.
“Na Venezuela, estes princípios traduzem-se no nosso apoio a um diálogo profundo que já se iniciou. Liderado --e é assim que deve ser-- pelos próprios venezuelanos”, disse.