A 30 de abril de 2026, os pares hereditários da Câmara dos Lordes sentaram-se pela última vez. Sir Keir Starmer apresentou o gesto como modernização democrática; na realidade, tratou-se da eliminação deliberada de um dos últimos travões institucionais ao poder do Executivo, à disciplina partidária e ao curto-prazismo eleitoral.
A linguagem usada para justificar a reforma é reveladora: “arcaico”, “indefensável”, “antidemocrático”. Mas o que verdadeiramente se condena não é o desempenho da instituição. É a sua própria natureza. O pecado dos Lordes hereditários era existirem como forma de legitimidade não criada pelo partido, pelo governo ou pelo cálculo eleitoral.
E é precisamente aí que residia a sua utilidade. O par hereditário era o raro membro do Parlamento britânico que não devia o lugar ao Primeiro-Ministro, ao aparelho partidário, ao eleitorado ou aos financiadores. Herdava o assento e, por isso mesmo, tinha uma liberdade política estrutural que os pares vitalícios nomeados nunca poderão ter. Não dependia de patronos. Não vivia de favores. Não precisava de agradar para sobreviver.
A reforma elimina também algo ainda mais raro: a memória longa. A Câmara dos Lordes representava, com todas as suas imperfeições, uma continuidade histórica que ligava o presente à experiência acumulada de séculos. Numa época dominada por ciclos eleitorais curtos, sondagens e histerias momentâneas, essa duração funcionava como antídoto contra a política reduzida ao imediato e como uma fonte de legisladores especialistas em vários domínios da sociedade.
Os reformistas insistem que a hereditariedade é “indefensável”, mas raramente enfrentam os factos. Os pares hereditários eram apenas cerca de 10% da Câmara dos Lordes e, em vários estudos, revelavam maior independência face à disciplina partidária do que muitos membros nomeados. Eram, em muitos casos, menos submissos ao poder do que aqueles que hoje os substituem.
O processo não começou com Starmer. Tony Blair, em 1999, reduziu os pares hereditários de cerca de 750 para 92, sob a promessa de uma reforma faseada que nunca chegou. O objetivo real era sempre o mesmo: desmontar a aristocracia institucional inglesa, passo a passo, até restar uma câmara alta dependente da nomeação política.
É isso que agora se consuma. Expulsam-se os que ninguém nomeou e substituem-se por pessoas escolhidas pelo próprio poder executivo. Starmer já nomeou dezenas de pares vitalícios. A isto chama-se modernização; em linguagem mais clara, chama-se concentração de poder.
E o horizonte final já foi anunciado: uma “Assembleia das Nações e Regiões”, eleita e sujeita aos mesmos vícios da câmara baixa. Ou seja, a segunda câmara deixará de ser um órgão revisor especialista com diferença própria para se tornar duplicação da política eleitoral comum.
Há reformas que aperfeiçoam instituições. Esta não aperfeiçoou nada. Destruiu. Com a saída dos pares hereditários, O Reino Unido perde não apenas uma tradição, mas uma forma rara de independência, continuidade e prudência política. 900 anos foram liquidados numa tarde. E, como tantas vezes sucede na modernidade, tudo em nome da igualdade.