As músicas dos Xutos & Pontapés servem de mote a “O Homem do Leme”, projeto atualmente em rodagem em Lisboa, que dará origem a um filme e a uma série que contam uma história de sobrevivência na selva urbana.
“O Homem do Leme”, um musical, conta uma história “de sobrevivência, de tentativa de superação, de chegar a uma condição melhor, mas havendo um lado sempre a puxar para baixo. Portanto, é uma luta intensa”, disse à Lusa o argumentista do projeto, Mário Cunha, num dia de rodagem, no Bairro do Armador, em Lisboa.
O projeto de ficção, com realização de João Maia, aborda “a vida de jovens dentro de bairros sociais, em condições socioeconómicas desfavorecidas e muito próximos da vida criminal”.
Zé Pedro, que no início da maioridade “sobrevive sozinho”, depois de a mãe ter desaparecido e o pai ter sido preso, é a figura central da trama.
Interpretado por Sandro Feliciano, Zé Pedro pinta graffiti, sonhando um dia tornar-se num artista plástico reconhecido, tem como objetivo ir estudar para uma universidade de artes fora de Portugal, algo que lhe permitiria sair de “um meio que o oprime e que não lhe dá possibilidade de sair do submundo” da pequena criminalidade.
Numa altura em que se prepara para os exames que lhe permitirão ficar mais perto do seu objetivo, “regressa ao bairro o seu melhor amigo de sempre, acabado de sair da prisão”.
O amigo “puxa novamente Zé Pedro para o mundo do qual ele quer sair”. “Ele tenta resistir a isso, mas depois há a questão da lealdade, da amizade e uma série de peripécias que levam a que ele acabe por se meter em problemas, dos quais depois tem de sair”, contou.
O núcleo central de “O Homem do Leme” conta ainda com duas personagens femininas - Inês e Débora, “que além do meio social desfavorecido em que vivem, ainda têm de lidar com o machismo estrutural, e com a violência que está associada a isso” - e com Pina, “um antigo boxer e que tem um passado também ligado à criminalidade, mas do qual se limpou”.
Pina tem uma academia de boxe, na qual “tenta puxar os jovens através do desporto para fora do mundo do crime”.
Este é um dos pontos deste projeto em que a realidade e a ficção se tocam. O espaço que serve de cenário à academia de boxe de “O Homem do Leme” é a Academia Jorge Pina, da associação criada pelo pugilista Jorge Pina, que em 2004 perdeu quase totalmente a visão, quando se preparava para o Campeonato do Mundo de Boxe.
A associação, sediada no Bairro do Armador, tem como missão promover a inclusão social de crianças e jovens desfavorecidos, bem como daqueles com necessidades educativas especiais, através do desporto.
Além do Bairro do Armador, na zona de Chelas, “O Homem do Leme” tem também como cenário o bairro da Quinta do Cabrinha, em Alcântara, que na ficção estão geograficamente perto um do outro e não em zonas opostas da cidade.
Visto tratar-se de um musical, a música dos Xutos & Pontapés está presente em vários momentos. Os temas foram ‘rearranjados’ pelo músico e produtor Armando Teixeira, diretor musical do projeto, e são interpretados pelos próprios atores.
De acordo com Mário Cunha, algumas canções ficaram “bastante diferentes”, e outras “um bocadinho mais próximas” das originais.
Além das versões das canções dos ‘Xutos’, “O Homem do Leme” conta com um tema original, com letra de Mário Cunha e música de Armando Teixeira.
Olhar para “o vastíssimo cancioneiro dos ‘Xutos’ e encontrar dez músicas que encaixassem na história, cujas letras e a temática tivessem que ver com aquilo que as personagens estavam a viver”, foi “um grande desafio” para Mário Cunha.
A banda sonora inclui inevitavelmente “Homem do Leme”, música que dá título ao projeto, e outras como “Remar Remar”, “Barcos Gregos”, “Circo de Feras” e “Sémen”.
O argumentista explicou que nos momentos em que a música entra na história, “é como se o tempo parasse e se entrasse num momento fantasioso, num momento de sonho, dentro de uma realidade muito crua”.
Na “primeira grande experiência” fora do teatro, Sandro Feliciano acaba por conciliar dois mundos nos quais se move: a representação e a música.
O ator editou no início deste ano o primeiro álbum, enquanto Malammore, “Aurora”, apresentado como uma narrativa autobiográfica e um testemunho sobre a experiência de ser um jovem negro em Portugal.
Sandro Feliciano acredita que a experiência que está a ter a gravar “O Homem do Leme” pode “fazer surgir novas músicas, novos projetos, novas visões, novos conhecimentos”.
O papel de Zé Pedro é “muito desafiante em vários aspetos”, até porque “todo o projeto é um projeto diferente, um musical”.
“Logo aí obrigou-me a entrar também por outros caminhos. Tivemos preparação vocal, de dança e também de boxe, com o Jorge Pina”, contou à Lusa, numa pausa da rodagem.
Embora a experiência de vida de Sandro Feliciano seja muito diferente daquela da personagem que interpreta no projeto, o ator tem sentido “muitos pontos de contacto” com a realidade e as pessoas com quem se tem cruzado.
“Há muitos pontos de contacto mesmo, porque ‘vimos todos do mesmo sítio’. Acho que a comunidade negra instantaneamente encontra uma relação quando vê um semelhante. Há experiências que são comuns, apesar de eu ter vivido fora de um bairro social e ter crescido longe deste ambiente em que estou agora”, partilhou.
Além de experiências, Sandro Feliciano sente também que “há muitas referências que são comuns”. “O que não há é o espírito de comunidade que existe aqui, por exemplo, eu nunca experienciei esse espírito de comunidade”, disse.
Nascido em Portugal, filho de pais cabo-verdianos, Sandro Feliciano foi adotado, com dois anos, por um casal de portugueses brancos.
Com sete anos iniciou-se no teatro, no Grémio Dramático Povoense, na Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira). Mais tarde entrou na Escola Profissional de Teatro de Cascais e, com 16 anos, enquanto ainda estudava, fez parte do elenco de “Casa Portuguesa”, peça de Pedro Penim estreada em 2022 no Teatro Nacional D. Maria II, e depois apresentada em várias cidades portuguesas e estrangeiras.
Se não tivesse sido adotado, o ator tem “a certeza” de que a sua vida teria sido diferente.
Embora tenha nascido num bairro social, Sandro Feliciano não tem qualquer memória desse tempo.
Na experiência em “O Homem do Leme”, tem sentido que o bairro “é uma coisa muito fechada”.
“Não as pessoas. As pessoas são abertas, gostam de conhecer, mas todo o bairro é fechado. E a própria sociedade também fecha os bairros, em muitos aspetos, em muitas coisas. E como também irá acontecer com estas personagens, tudo bloqueia. Ter uma morada aqui parece que significa algo logo, instantaneamente, e algo negativo, nunca positivo”, referiu.
“O Homem do Leme”, uma produção da SkyDreams para a RTP ainda sem data prevista de estreia, conta no elenco com atores profissionais como Pedro Hossi, Mariana Cardoso, Mina Andala e Luís Henrique Matos, além de Sandro Feliciano, e também com amadores, habitantes de Chelas.