A recente atenção mediática sobre o surto de Hantavírus num navio de cruzeiro expôs uma vulnerabilidade crítica no turismo marítimo. Hoje, mesmo perante algum “ceticismo” (para ser branda) de alguns dirigentes mundiais face ao valor da ciência e da saúde pública, ainda nos recordamos bem como a Covid-19 foi um ensaio geral, que evidenciou que as fronteiras sanitárias nos mares permanecem porosas. O Hantavírus, cuja variante Andes permite a transmissão entre humanos, é transmitido pela inalação de partículas de excrementos de roedores. Os navios e os seus sistemas de ar condicionado centralizado, podem constituir veículos de propagação, o que exige uma revisão profunda dos protocolos de manutenção e logística de abastecimento.
O mundo assistiu à navegação atlântica do navio MV Hondius que levou à complexa operação realizada entre os dias 10 e 12 de maio em Tenerife. Sob a supervisão direta da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do governo espanhol, a evacuação foi executada no porto de Granadilla sob um protocolo de isolamento tão rigoroso quanto possível. O navio agora segue para os Países Baixos para uma desinfecção estrutural profunda. Certamente que muitos madeirenses ter-se-ão perguntado, e se o porto escolhido tivesse sido o Funchal? Como teríamos respondido a esse desafio logístico e solidário?
A nível regional, o mercado de cruzeiros representa um pilar estratégico da economia azul. Para destinos que dependem fortemente do fluxo de passageiros, a confiança é a moeda mais valiosa. Uma aposta turística sustentável não pode basear-se apenas na beleza das paisagens ou na modernidade dos terminais; deve alicerçar-se numa infraestrutura de saúde pública capaz de garantir que a experiência do visitante não termina em quarentena ou, pior.
A Madeira, como hub central no Atlântico, ocupa uma posição privilegiada e simultaneamente exposta. Para precaver riscos, a Região deve implementar um protocolo de inspeção rigoroso nos portos, indo além do controlo alfandegário e garantindo a segurança sanitária para os fornecedores locais. Os bons exemplos de comunicação entre as autoridades de saúde regionais e os sistemas médicos de bordo devem ser sempre reforçados para que haja uma resposta epidemiológica imediata antes mesmo do desembarque. Os especialistas regionais na matéria certamente acrescentarão medidas necessárias.
“Foi-se” o Covid-19, mas a segurança sanitária pós-pandemia tem de ser norma estrutural, ainda para mais tendo em conta o número crescente de visitantes em navios cruzeiro. Isto, sem esquecer a responsabilização das próprias empresas de cruzeiro nesta logística, bem como noutras relativamente ao impacto ambiental (a pegada ecológica e de resíduos/poluição) dos cruzeiros no nosso ambiente.
A valorização do produto turístico faz-se elevando a fasquia em todas as exigências, também no ramo sanitário. Obviamente sem subalternizar a própria proteção da população local. Tal não é securitarismo nem alarmismo. É navegar com a ajuda de todos os meios tecnológicos possíveis, ao invés de navegar à costa.