Há muito tempo que o debate político português gira em torno das mesmas promessas: reformar o país, modernizar a economia, crescer mais, convergir com a Europa. O problema é que, por detrás da retórica da mudança, parece existir um entendimento tácito entre os protagonistas do sistema. Porquê? Porque mudar implica custos, riscos e rupturas que poucos estão dispostos a assumir. E assim, entre cálculos tácticos, bloqueios convenientes e encenações sucessivas, o país mantém-se preso no impasse. Eis dois exemplos recentes.
Comecemos pelo Código do Trabalho. Durante nove meses a principal estratégia do Governo foi procurar uma solução na concertação social com a UGT, uma central sindical historicamente muito próxima do PS. Como se previa, a coisa não deu em nada, ou seja, resultou em parto de nado-morto. Logo, nem o governo conseguiu um acordo com a UGT, nem o PS deixou de exercer influência para minar esse acordo. A outra opção oferecida ao governo era usar a maioria de direita confortável que tem na AR, tal como fez aquando da lei da nacionalidade. Mas como foi desaproveitada na fase inicial, o Chega saltou fora e Ventura passou ao populismo puro e duro de sentença categórica: ou baixam a idade da reforma, ou não há Código nenhum. Primeiro a paz, depois os pormenores.
Como se percebe destes joguinhos quase pueris, o caminho vai servir a todos e encaixar que nem uma luva nos objectivos de cada um. Na verdade, é preciso [fingir] mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma. E no fim, tudo acaba com cada um deles a acusar os outros de bloqueio institucional e político. Montenegro vai culpar o PS; Carneiro vai culpar o Governo; e Ventura vai culpar os dois “partidos do sistema”. Um passo em falso é melhor do que um passo no desconhecido. O resto serão ucronias e histórias alternativas para entreter horas de televisão.
Como consequência, o país ficará como está: com produtividade e crescimento aquém do necessário, com salários baixos, com impostos que esmagam quem trabalha, produz e investe; e com particular apetência para sofrer os impactos do imprevisto. Em suma, Portugal continuará incapaz de reter os jovens mais qualificados, enquanto continua a depender de imigração para responder às necessidades imediatas do mercado de trabalho. O problema não está nas pessoas, está no modelo económico que não gera salários ou oportunidades suficientes. Mas que satisfaz a modorra instalada.
O mesmo se vai suceder com a revisão da Constituição, o segundo exemplo que aqui trago, e que depois de vários anúncios mediáticos, começou com um falso tiro de partida do Chega, com uma garantia dada pelo PSD e com a quase certeza de que o PS só precisa do silêncio para que a letra sagrada constitucional perdure por tempo indeterminado. Já o referi, é preciso [fingir] mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma.
Presumi que o governo devia ser forte e assumir a sua função e responsabilidade que é governar, reformar, transformar, liderar. E presumi que quase nove anos de Geringonça, maioria relativa e maioria absoluta socialista, tivessem bastado para provar que a atonia não serve, nem resolve um único problema estrutural ou sistémico. Em 2015, quando chegou o Dr. Costa, Portugal tinha 15 dos 27 países da UE à sua frente em termos de PIB per capita; em 2024, quando o Dr. Costa se foi embora, já eram 18. A realidade é dura e bem mais cruel do que a ficção. Mas quem não suporta o calor, não deve entrar na cozinha.
Por agora, todos espreitam o melhor momento para provocar eleições, apesar do teatro da suposta estabilidade que os três líderes partidários voluntariamente assumem. É o chamado impasse mexicano. Enquanto isso, estamos iguais ao Vladimir e ao Estragon, os dois vagabundos da peça de Beckett, que passam o tempo a reflectir e a divagar sobre o absurdo enquanto esperam por Godot, a personagem que não existe e que por isso nunca chega. Talvez seja essa a imagem certa do país, um país perdido entre diagnósticos, impasses e oportunidades desperdiçadas, enquanto aguarda a mudança que ninguém parece verdadeiramente disposto a fazer acontecer.