MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

15/05/2026 08:00

Ouvi dizer que o dia que passa – ou seja, hoje – é o corpo de tempo mais estranho que se conhece, mas eu bem sei que há sempre muita mentira no dizer das pessoas. A meu ver, as pessoas mentem com todas as partes da matéria e da alma, sejam opacas ou transparentes, muito antes das palavras, quando se apresentam ao mundo, que é como quem diz todos os dias. E eu também. Ou melhor, sobretudo eu. A mentira – ouvi dizer – habita-nos como se fosse o sal e as vestes da nossa vida e cada palavra é um labirinto sem fim onde nos perdemos a toda a hora.

De repente, acordei.

Estava a sonhar isto e acordei.

Para dizer a verdade, todos os dias acordo muito antes de acordar, ainda durante o sonho, mesmo quando não sonho ou não me lembro do que sonhei.

Enfim, acordei.

Fiz dez minutos de exercício físico no quarto para estimular a circulação e preparei-me para sair. Vesti umas calças de ganga coçada e uma t-shirt preta, calcei umas botas alentejanas, daquelas rudes, duras para caraças, botas de trabalho, estão a ver?, umas botas baratas de cano curto, com seis ilhós para os atacadores, daquelas que precisam no mínimo de um ano inteirinho de uso para se fazerem aos pés e lembrei-me que antigamente as pessoas implicavam comigo por causa deste tipo de botas, as pessoas gozavam comigo, diziam que era calçado inadequado para a função de jornalista na cidade – para reportagens no campo podia ser, mas na cidade não – e já neste século, não há muitos anos, quando retomei a atividade após uma longa temporada de viagem e vagabundagem em África, um dia não me deixaram entrar na Assembleia Legislativa por causa disso, vejam lá, por causa das botas, e eu perdi a conferência de imprensa que ia cobrir. Entretanto, as regras de vestuário terão mudado por ali, pois agora circulo à vontade na Casa do Povo, independentemente da roupa e do calçado. Ninguém me diz nada. Isto é que é democracia!

E aqui vou eu no vazio do dia...

Outra vez perdido entre o que sou e o que tenho para fazer – todas as malditas obrigações impostas pela ditadura do dinheiro –, perdido entre o que sou e o muito que ainda me falta ser, perdido entre o que sou e o que jamais serei, perdido em tudo o que simplesmente sou. Ávido de beleza. Ávido de sabedoria. Ávido também de silêncio e distância. Ávido de amor.

Raios me partam!

Visto assim, pareço profundo e inquieto, tão poeta, tão filosófico, pareço mesmo um intelectual de categoria, ainda por cima com roupa a condizer, calças puídas e botas grosseiras. Nada disso, meus amigos! Nada disso! Antes pelo contrário. Já agora, só para vos esclarecer sobre este paleio, digo-vos o mesmo que outros disseram sobre o assunto:

Quando me ponho a escrever, sou o homem mais sensível do mundo. Quando não estou a escrever, sou um sacana como outro qualquer.

Sim, longe da escrita sou um sacana como outro qualquer e não raras vezes sinto que o meu tio Celerino já morreu, ou está prestes a morrer, sobretudo agora, numa época em que qualquer pessoa, com alma ou sem alma, alfabetizada ou analfabeta, consegue escrever um bom romance em cinco minutos, recorrendo à inteligência artificial. Nem precisa de pensar. Aquilo é tão fácil e deixa-nos de boca aberta. Em breve, será impossível distinguir o falso do verdadeiro, até porque qualquer ser humano tem tanto de verdadeiro quanto de falso.

De modo que volta e meia, desapontado e desconcertado, esmagado pelo poder infinito da IA, sou levado a pensar na eventual morte do meu tio Celerino, como aconteceu com o escritor mexicano Juan Rulfo, que publicou dois livros brilhantes nos anos 50 do século passado e depois remeteu-se ao silêncio. Quando lhe perguntavam por que tinha parado de escrever, ele respondia: “Morreu o meu tio Celerino, que era quem me contava as histórias”.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Acha que Portugal não devia participar na Eurovisão, em protesto pela presença de Israel?

Enviar Resultados
RJM PODCASTS

O I Fórum Regional Erasmus+ pôs em evidência o papel que a Madeira tem tido na aplicação deste programa. Secretária regional exorta a mais candidaturas,...

Mais Lidas

Últimas