O passado dia 09 de maio não foi um dia qualquer (ou não deveria ter sido, melhor dizendo!), pois celebrou-se o Dia da Europa, um dos cinco símbolos de referência da União Europeia (UE), a que se junta, a bandeira, a moeda, o hino e o lema – “Unida na Diversidade”.
Explicado de forma muito sumária (algo simplista, até), foi o dia em que Robert Schumann, inspirado pelas ideias do seu amigo Jean Monnet, apresentou um caminho para uma Europa saída da II Grande Guerra e que merecia uma estratégia que a encaminhasse para novos desígnios, onde a paz teria forçosamente de ser o foco central de todo o processo. As declarações feitas por Schumann em 1950 tornam-se “virais” por estes dias, pois passados 76 anos, muito daquilo que disse continua atual, ainda que o mundo em que agora vivemos seja radicalmente diferente daquele em que nasceu a Comunidade Económica do Carvão e do Aço, posteriormente, Comunidade Económica Europeia e finalmente, União Europeia.
Os tempos são outros! Diferentes, marcados pela agitação permanente, pela imprevisibilidade, pelo padrão tecnológico altamente evoluído cujo controlo nos escapa por entre os dedos, de forma muito perigosa. É uma nova realidade, onde a velhinha “ordem mundial” foi subitamente arrasada, parecendo-me óbvio que, desta ação concertada, resulta o agravamento das disparidades já existentes. Recordo que, em 2025, os 12 homens mais ricos do mundo detinham mais riqueza do que metade de toda a humanidade, ou seja, 12 pessoas neste planeta comum já detinham uma riqueza equiparável à soma dos bens de 4 000 000 000 de pessoas (não me enganei nos zeros. É mesmo assim!).
Este é um mundo realmente estranho, não necessariamente pior, pois em muitos aspetos houve progresso e mesmo não existindo riqueza entre todos, houve uma melhoria generalizada da qualidade de vida da população. Nestas celebrações europeias de maio, o padrão festivo mais comum entre instituições foi o de publicar estatísticas. Números que “enchem o olho”. Portugal, que este ano celebra o 40º aniversário da sua presença na UE, apresenta um curriculum fantástico: duplicamos o PIB/per capita, aumentamos em quase 10 anos a esperança média de vida, reduzimos em 44% o abandono escolar, vimos 95 mil milhões de euros investidos nas regiões portuguesas. A lista é extensa.
Ora, qualquer madeirense reconhece hoje a importância da UE, na redefinição do nosso território, no progresso que trouxe às empresas e aos cidadãos. Estou certo de que, em consciência, ninguém ousará afirmar que a Madeira não beneficiou com a entrada de Portugal na UE! Nem tudo foram rosas, mas imputar a Bruxelas a culpa do que não correu bem é um ato de profunda injustiça.
E por falar em injustiças, fiz um pequeno exercício prático: percorri as contas oficiais dos municípios da RAM numa rede social (optei pelo Facebook), para verificar quantas se dignificaram a fazer uma publicação alusiva ao Dia da Europa. O exercício foi esclarecedor, mas dececionante, pois não esperava verificar uma tão expressiva indiferença (institucional) à efeméride “Dia da Europa”. Entre referências a mobilidades no âmbito do Interreg (curiosamente financiado por fundos europeus) e tributos ao Bob Marley, não houve a amabilidade de se dizer “Parabéns Europa”.
Dos poucos que não deixaram passar a data em branco, tenho a destacar este parágrafo publicado na referida rede social que custou zero aos cofres do município, mas que ilustra bem o reconhecimento que dão à nossa Europa: “O desenvolvimento do concelho e da Região deve-se também ao contributo dos programas e fundos europeus, que têm permitido concretizar investimentos importantes em diversas áreas, melhorando a qualidade de vida da população. Câmara de Lobos associa-se, assim, à celebração do Dia da Europa, reconhecendo a importância da cooperação e da união entre os povos europeus”.
São gestos sem importância? Alguns dirão que sim. Eu, pessoalmente, diria que não.
Marco Teles escreve à segunda-feira de 4 em 4 semanas.