Estávamos a almoçar quando o telemóvel do meu pai tocou. Coisa rara. E eu, preparando-me para entrar em ação caso fosse alguma tentativa de burla, levantei-me para o acompanhar quando oiço:
— Sim, Silva. Está tudo bem, graças a Deus. Sim, claro que podes, estou em casa.
Um molho de cana-de-açúcar: era isso que o Sr. Silva queria oferecer ao meu pai, e, quase sem dar conta, já estava a salivar. Quem nunca chupou um pedaço de cana, tirando-lhe todo o sumo até ficar com a palha dentro da boca? E rico pitéu isto era, quando os nossos lanches se resumiam a pão com banana, bolacha Maria com leite ou uma qualquer peça de fruta furtada, às vezes, da árvore do vizinho.
A fazenda em frente à casa da minha avó tinha cana-de-açúcar. O feitor costumava oferecer algumas, que ela cortava com uma navalha, sentada no degrau do terreiro. Eu e os meus primos, sentados no chão, observávamos esta delicada e exímia operação, sempre com os olhos na navalha e questionando-nos como era possível não cortar um dedo ou até a mão. Depois, partindo-a em vários bocados, com uma medida quase tirada a régua e esquadro, metia-os em diferentes recipientes, dando a cada um de nós. Já começávamos a chupar ali mesmo, mas eu preferia sentar-me na beira do telheiro, de onde a vista para o porto era mais generosa. Dali também avistava a fazenda, que, nesta altura, estava cheia de homens a apanhar a cana, carregando pesados molhos às costas até às furgonetas que estavam paradas à entrada do portão grande. Ouvia as vozes, alguns gritos até, mas a distância não permitia perceber do que falavam. Eu bem que apurava o ouvido, mas nunca consegui descortinar qualquer conversa.
Nestes dias de safra, e porque morava perto do engenho do Hinton, também apreciava o movimento extraordinário de carros a entrar carregados de cana, que depois saíam já vazios. Era um rodopio sem igual, e as máquinas da moenda trabalhavam dia e noite, espalhando pelo ar um cheiro adocicado e morno que consigo identificar a milhas de distância. Por vezes, de mochila às costas, encostava-me ao portão entreaberto, observando toda aquela confusão: carros a despejar cana; molhos no chão, que posteriormente eram metidos na máquina; homens em cima das máquinas, cada um no seu lado, procurando que as canas não caíssem e entrassem direitinhas na prensa; mais homens mudando as tinas sempre que o líquido chegava quase à borda, e outros levantando-as aos ombros e levando-as para outro compartimento. Alguns não tinham camisa; havia até outros que andavam descalços de um lado para outro, mas quase todos usavam um barrete de orelhas. Tal como acontecia na casa da minha avó, as vozes distantes ecoavam pelo grande barracão, misturando-se com o suor, com o calor da maquinaria e ainda com o aroma da cana moída. Ouvia uma espécie de sussurro que se confundia com uma cantiga escutada no meio da montanha, mas, na verdade, as conversas eram completamente impercetíveis.
De quando em vez, a tentação falava mais alto e, olhando os carros alinhados ao longo do muro da ribeira, colocávamos o pé no pneu para ajudar o balanço e roubávamos uma ou duas canas (nunca me atrevi a fazer semelhante coisa sozinha; era sempre quando estava com os amigos), correndo com todas as forças rua acima até casa e deixando para trás o encarregado do engenho a gritar e a dizer que ia chamar a polícia. Obviamente, eu não tinha qualquer necessidade de roubar canas, mas tenho de confessar que repetimos a proeza uma e outra vez e, no meu caso, dava-as aos vizinhos porque as tinha de sobra.
Hoje, e porque a vida dá tantas voltas, passo todos os dias no local do crime. A chaminé, essa espécie de estandarte da memória, há muito que não deita fumo, mas, acreditem, abro e fecho os olhos, como se precisasse de me certificar dessa inércia, e, se os mantiver fechados, até vejo os carros por ali abaixo e sinto o odor que, naqueles meses de Abril e Maio, se propagava pelas redondezas — é, muitas vezes, o cheiro da memória que nos abriga por entre o corrupio do efémero.