Há momentos na vida das sociedades humanas em que, imagino, um observador externo (de Marte, por exemplo) teria dificuldade em desfiar o novelo lógico em que se emaranham grande parte dos terráqueos. Queremos tudo, absolutamente tudo, mesmo quando aquilo que queremos choca com aqueloutro que queremos. A ver se me consigo explicar (talvez me contradiga).
Temos hoje o objectivo colectivo, umas vezes mais honesto que outras, de fazer diminuir o consumo dos combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, como objectivo particular, queremos que os preços desses mesmos combustíveis se mantenham artificialmente baixos. Ora, se o preço for alto, o incentivo é para que se consuma menos quantidade desses demoníacos combustíveis, que é o que se quer para salvar o mundo e a alma (certo?). Já se o preço for baixo eu fico mais à vontade para gastar o útil combustível como me aprouver, que é o que se quer para apaziguar a alma (certo?). Qual deles prefiro? Depende do dia: hoje posso querer declarar-me um salvífico paladino que abraça o sacrifício pessoal em prol da causa maior, amanhã posso querer encher o depósito.
Também é possível ver e ouvir aclamados peritos disto, daquilo e daqueloutro, garantir que a economia portuguesa está gravemente necessitada de empresas que paguem mais, melhor e sobejamente. Ora, isto implica que aquelas empresas tenham lucros, seja para pagar impostos e salários, seja para investir em inovação e assim continuar a ter lucros; o que é, segundo os pregoeiros peritos disto, daquilo e daqueloutro, um ultraje. Parece que, se forem avultados (ou um bocadinho além da moralizadora bitola dos frívolos peritos), já não são meros lucros: são inesperadamente maliciosos, quando não são simplesmente obscenos — tudo vale para justificar o ungido confisco. Trocando por miúdos, convém que as empresas que operam neste país tenham sucesso gordo com lucros raquíticos. Quanto mais raquíticos, melhor. E se a fortuna amaldiçoar uma empresa com uma temporária garfada mais generosa, é da mais elementar moral que esta evite deixar investidores contentes (têm de desistir de investir, pá!), ou se deixe disso de apostar na inovação e expansão do negócio. O que é preciso é entregar o circunstancial sobejante a esse gestor de topo, de eficiência acima de qualquer crítica, que é o Estado, que se encarregará, decerto sem desperdício e com justiça a toda a prova, de o distribuir por quem precisa (e se porta bem, claro).
Queremos lucros para fazer andar a economia? Claro que sim! É preciso criar mais emprego, melhorar salários e atrair investimento. Queremos castigar as empresas por terem lucros? Claro que sim! Isto de se fazer dinheiro é imoral.
Noutro exemplo— provocador, aviso — da nacional-hipocrisia que se recusa a aceitar a racionalidade e a lógica, lembro que Salazar preconizava uma economia ao serviço da Nação, sem grandes aventuras além do autorizado pelo Estado. Os arautos do actual regime, pelo contrário (espero que o sarcasmo não se perca), preconizam uma economia ao serviço do Povo, sem grandes aventuras além do autorizado pelo Estado — mas em liberdade. Dirão que não, imagino, para logo a seguir apregoarem que os lucros são extraordinários e que têm de ser postos... ao serviço do Estado. Mas em liberdade, atenção. Liberdade para entregar os lucros ao confisco, claro está.
Ainda tenho a esperança — tísica, confesso — de que mais pessoas ignorem os postilhões do regime e entendam que não é possível ter tudo e o seu contrário, a bem da sanidade da nação.