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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

22/05/2026 07:35

No princípio do mês de novembro de 2010, quando eu vivia numa missão em Moçambique, fui atacado por um bicharoco hiperagressivo – um vírus, uma bactéria, uma porcaria qualquer dessa família de bichos invisíveis e nojentos – e fiquei com os pés para a cova. Tive febre alta e diarreia intensa durante vários dias e pensei seriamente que não chegaria vivo ao dia de São Martinho – o dia do meu aniversário. Pensei que iria morrer antes de completar 43 anos, estendido numa cama exígua, sozinho, num quarto ao fundo do corredor, numa missão em África, longe da minha terra, longe da minha família, longe dos meus amigos.

Então, para conter o desânimo e afogar o choro naquelas horas nefastas, eu tentava construir uma frase perfeita para iniciar a narrativa da minha vida em África, onde já me encontrava há três anos, uma frase que fosse deslumbrante, profunda, original, uma frase que justificasse a minha morte ali, tão simples e exemplar como “Eu tive uma fazenda em África” – estão a ver o estilo? –, ou “O branco da zona, num acesso de raiva, fechou a loja e disse a toda a gente que não mais viveria com os pretos”, ou “Sou o morto”.

Mas, por mais voltas que desse ao juízo, não chegava a lado nenhum. Tudo o que escrevia soava-me a infantil, imaturo, estúpido, provavelmente devido ao meu estado débil e febril, ou talvez potenciado por esse estado. Não sei.

Para agravar a situação, sempre que fechava os olhos para descansar, a minha cabeça era alagada por uma estranha e inusitada banda sonora, nada condizente com a fraqueza do corpo, como se o meu pensamento estivesse ligado às emissoras de rádio do tempo da minha infância e adolescência, a passar música a gosto do ouvinte, enquanto eu morria na Alta Zambézia a ouvir que “Ninguém, ninguém/ poderá mudar o mundo/ ninguém, ninguém/ é mais forte que o amor/ ninguém, ninguém, ninguém”, ou “Lady Laura, me leve pra casa/ Lady Laura, me conte uma história/ Lady Laura, me faça dormir”, ou “Passear contigo, amar e ser feliz/ O que mais quero da vida/ Ter amor e muito amor pra dar/ Ter amor e muito amor pra amar”. Também era frequente ouvir o hino do Marítimo – Ò Marítimo!/ Ò Marítimo! – e a publicidade antiga da Coral.

Uma coisa incrível!

Mas, apesar da animação musical, foram dias terríveis.

E, depois, o calor... a humidade... os mosquitos...

Uma semana depois, na véspera do meu aniversário, ainda não tinha regressado por inteiro à realidade. Estava tão longe de mim como da frase que procurava para começar a contar a história da minha vida em África e isso fez-me pensar que, afinal, talvez não tivesse assim tanto para dizer sobre o assunto como calculava. Por outro lado, pensei que aquela tristeza, aquela desilusão, aquele desgosto se devia em grande parte à diarreia e à febre, pois nunca me tinha sentido tão doente como então. Pior, ou igual, só me lembro de uma gripe que apanhei aos 15 anos. Fiquei vários dias de cama e, quando voltei à escola, frágil e branco como um cadáver, sentia-me irreal, um palmo acima do chão, tudo me parecia enevoado e distante, como num filme esquisito a preto e branco.

Em Moçambique, no pior momento – o momento da fraqueza total – cheguei a pensar que a doença era um castigo de Deus. Deus derramava a sua ira sobre mim porque eu não acreditava nele e, como se isso não bastasse, gozava com ele nos tempos livres, quando estava de boa saúde.

Eu dizia assim:

– Meu Deus e meu Senhor, Deus de Israel, Senhor dos Exércitos, meu Bom Pastor. Ouve a súplica do teu humilde servo. Ajuda-me.

Era assim que eu gozava com Deus.

Também inventei um personagem para interagir com ele, chamado Etraud Seriac – o meu nome ao contrário –, um tipo que fora traído e abandonado pela mulher e logo a seguir perdeu o emprego, de modo que ficou de tal forma desorientado, como um escorpião rodeado de fogo, quando inesperadamente recebeu a visita do Anjo do Senhor durante o sono e o Anjo do Senhor disse-lhe:

– Etraud Seriac, meu filho, ouve a ordem do teu Deus: Levanta-te e parte para África.

Foi o que eu fiz, mesmo sem acreditar em Deus. Foi, de facto, o que eu fiz. Contudo, ainda não encontrei a frase certa para iniciar o relato daquela aventura...

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