Há cidades que nos conquistam à primeira vista. Bogotá não é uma delas. E talvez seja precisamente por isso que vale a pena.
A Colômbia chega-nos quase sempre embrulhada em estereótipos pouco simpáticos, como Pablo Escobar, o narcotráfico, violência, guerrilhas, corrupção. E a verdade desconfortável é que isso não é invenção. É, em larga medida, realidade, apesar de incompleta. Ao longo das últimas décadas, apesar do processo de paz e da extinção parcial do grupo guerrilheiro FARC, o país continua a ser palco de uma das guerras civis mais longas da América Latina, com zonas inteiras sob influência de grupos armados, economias paralelas alimentadas pela cocaína e uma violência que deixou marcas profundas. Esse passado, e presente, continua a pesar na sua reputação.
Mas reduzir a Colômbia a isso seria tão simplista quanto injusto.
Trata-se também de uma democracia antiga e funcional, com instituições que operam com um grau de independência relevante na região. Há uma imprensa livre, universidades de excelência, uma vida cultural vibrante e uma sociedade civil ativa. É a pátria de Gabriel García Márquez e de Fernando Botero, mas também de uma nova geração urbana que olha mais para o futuro do que para o passado. É um país de contrastes quase absurdos, de riqueza e pobreza, modernidade e atraso, segurança e risco, tudo coexistindo lado a lado, muitas vezes na mesma rua.
E é precisamente em Bogotá, a capital, que esses contrastes atingem o seu ponto máximo.
A 2.600 metros de altitude, esta megalópole com mais de 11 milhões de habitantes não faz qualquer esforço para agradar. O trânsito é caótico, a poluição persistente e o clima, uma mistura constante de frio húmido, nuvens baixas e chuva, dificilmente ajuda ao entusiasmo. Deslocar-se pode ser um teste de paciência, pois o trânsito é muito intenso e imprevisível.
A sensação de insegurança, embora variável consoante as zonas, está sempre presente. Quem pode, protege-se em condomínios fechados, vigilância privada, arame farpado eletrificado, rotinas cuidadosamente calculadas. Há também uma desconfiança difusa no ar, quase estrutural, e uma burocracia que parece testar os limites da resiliência humana. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas enfrentam diariamente deslocações longas desde periferias distantes, numa cidade que cresce mais rápido do que consegue organizar-se.
E, no entanto, Bogotá revela-se, pouco a pouco.
Há uma energia cultural difícil de ignorar, de cafés cheios, livrarias, salas de teatro ativas, cinemas, concertos, exposições. Na cidade existem muitos e bons museus, entre eles o célebre Museu do Ouro, testemunho impressionante das civilizações pré-colombianas. Aos domingos, muitas das principais avenidas fecham ao trânsito e transformam-se em ciclovias, que diz muito sobre uma cidade que, apesar de tudo, tenta reinventar-se.
Bairros como Chapinero ou Zona G surpreendem pela sofisticação gastronómica e pela arquitetura contemporânea, enquanto o centro histórico de La Candelaria oferece um contraste feito de ruas estreitas, fachadas coloniais e uma certa nostalgia desordenada. E sobretudo, há as pessoas. Cordiais, resilientes, com uma gentileza que não soa forçada, habituadas a navegar a complexidade com uma espécie de pragmatismo tranquilo.
Não é uma cidade que seduza de imediato, mas também não é uma cidade que se esqueça facilmente. Exige tempo, alguma paciência e um certo desapego a expectativas pré-formatadas.
No fim, Bogotá não se deixa resumir. E talvez essa seja a sua maior honestidade.