Como soe dizer-se, mão amiga chamou-me a atenção para um vídeo publicado pelo deputado do Chega Francisco Gomes, em que este, naquele estilo irado, lançava invetivas com base em declarações minhas. Sobre a forma, há pouco a dizer: foi mais um daqueles vídeos em que parece estar permanentemente zangado com o mundo. Meu caro, o seu estilo não transmite indignação, rigor ou convicção. Revela apenas teatralidade de TikTok político, ira e uma permanente necessidade de fabricar inimigos para sobreviver politicamente. Um conselho: alprazolam ajuda. Ou, se preferir, umas aulas de yoga. Há excelentes instrutores, locais e estrangeiros. E talvez lhe fizesse bem libertar essa energia acumulada... ou fingida.
O deputado comunica como quem vive numa caixa de comentários: muito dedo em riste, muita frase inflamada e pouquíssima substância. O problema é que gritar não transforma opiniões em factos, nem agressividade substitui argumentos. E confunde histeria com firmeza e populismo com coragem. O seu discurso, sacado diretamente da extrema-direita online, vive de suspeições, frases feitas e medo fabricado. E acaba sempre da mesma forma: desmontado pelos factos e reduzido a ruído político. Talvez por isso viva permanentemente zangado. Deve ser frustrante descobrir, vezes sem conta, que a realidade insiste em não colaborar com a personagem que criou.
Na imigração, o padrão repete-se. Fala em “ameaças” e “problemas estruturais”, mas esbarra numa chatice chamada realidade: os imigrantes dão saldo positivo à Segurança Social, ajudam a manter setores inteiros a funcionar e não têm qualquer relação com o aumento da criminalidade. O que há são dados que contradizem o discurso. Mas dados não fazem barulho e, portanto, não servem para o guião. Basta um relatório oficial, um número ou algum contexto para a narrativa colapsar. Portugal continua mais seguro do que a retórica chegana sugere, a economia mais pragmática do que o medo vendido, e a Saúde e Educação mais dependentes da imigração do que o deputado gostaria de admitir. No fim, sobra uma pergunta simples: quando tudo o que se diz cai ao primeiro confronto com os factos, é mesmo convicção ou apenas ruído com microfone?
Num tempo em que tantas sociedades se dividem em torno da diferença, a Madeira tem dado sinais claros de que escolheu outro caminho: o da convivência, do diálogo e da valorização da diversidade humana e cultural. A Festa da Diversidade Cultural, que este ano teve a maior adesão de sempre, mostrou exatamente isso: uma Região aberta ao mundo, enriquecida por milhares de cidadãos estrangeiros que escolheram a Madeira para viver, trabalhar, constituir família e construir futuro.
A diversidade não é uma ameaça à identidade de um povo. É uma oportunidade de crescimento coletivo. Uma sociedade que acolhe é uma sociedade mais resiliente, mais preparada e mais rica culturalmente. E mesmo para quem não consegue perceber isto por empatia, talvez perceba pela reciprocidade.
Durante décadas, milhares de madeirenses partiram para o Reino Unido, Venezuela, África do Sul e tantos outros destinos. Construíram comunidades respeitadas, contribuíram para os países de acolhimento e preservaram as suas tradições longe da terra natal. O exemplo de Crawley, onde estive recentemente, é particularmente simbólico. Na Festa do Espírito Santo, centenas de madeirenses, portugueses de várias origens e ingleses celebraram juntos a fé, a cultura e a nossa memória coletiva. Com um detalhe revelador: foi graças à comunidade madeirense que a Igreja de Saint Bernadette não fechou portas nem foi vendida, permitindo que a própria comunidade católica inglesa mantivesse vivo um espaço de encontro e espiritualidade. Isto é, os “estrangeiros”, mantiveram vivo o património religioso inglês.
Por isso, talvez seja importante, enquanto Região de acolhimento, olharmos para os imigrantes com a mesma humanidade e respeito que gostaríamos que os nossos emigrantes encontrassem lá fora. Porque os estrangeiros contribuem diariamente para o crescimento económico, social e cultural da Madeira. Num mundo onde a ignorância e o preconceito erguem muros, a Madeira escolhe construir pontes entre culturas, gerações e povos. E essa capacidade de acolher, respeitar e valorizar a diferença define muito melhor a nossa identidade coletiva do que qualquer discurso de ressentimento, ressabiamento ou ódio.
Porque aquilo que une os madeirenses espalhados pelo mundo e os imigrantes que hoje escolhem a Madeira é exatamente o mesmo: o desejo de ser feliz.
E isso não nos divide. Enriquece-nos. Algo que o deputado Francisco Gomes, manifestamente, ainda não conseguiu compreender.