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Artigo de Opinião

Gestora de Projetos Comunitários

30/05/2026 08:00

A ‘manosfera’ não inventou o desprezo pelos direitos das mulheres ou por qualquer outro ser humano. Esse desprezo é antigo. Foi aprendido à mesa, no café, no dia-a-dia, na piada “inofensiva”, no silêncio cúmplice com que tantas vezes se normalizou o controlo, a humilhação, a posse. O que mudou foi a sua escala, não a natureza do fenómeno.

Antigamente, no tempo em que eu era adolescente, muitos destes discursos eram envergonhados, promovidos entre paredes, dentro de casa. Hoje, com as redes sociais, entram pelo telemóvel de todos os que tenham acesso à internet, inclusive crianças que não compreendem a gravidade do que se passa. Muitas dessas crianças, demasiadas vezes, calam-se e carregam estes episódios nas suas mentes, sem apoio, durante anos. E as consequências aparecem com o tempo. Quando os pais não compreendem o que se passa, quando se sentem impotentes em relação aos silêncios e ao isolamento social daí decorrentes. Conheço casos de miúdos que se cortam, que se autoflagelam para conseguir lidar com a realidade, como se, de alguma forma, sentissem alívio ao infligirem dor física para menorizar a dor psicológica que sentem. Os pais destes miúdos, se calhar, não sabem. Não porque não querem saber, mas porque a realidade da adição aos telemóveis está muito além daquilo que vemos. É uma questão de saúde mental que ainda não encontrou o caminho da mitigação.

A ‘manosfera’ não é algo transversal a “todos os rapazes”, nem esta é uma posição “contra os homens”. Estamos a lidar com uma indústria de ressentimento que vende aos nossos jovens uma caricatura de masculinidade assente na dominação (para não parecer fraco), na desconfiança das mulheres (para parecer inteligente), na confusão entre igualdade e ameaça (para manter o estatuto).

A investigação sobre os ‘manfluencers’ (Renström e Bäck, publicado em Sex Roles) mostra que quando certos homens percecionam a igualdade como perda de estatuto, tornam-se mais permeáveis a mensagens misóginas. É a política do medo, travestida de conselhos de vida “de homem para homem”.

A fórmula repete-se um pouco por todo o mundo. Influenciadores que se apresentam como treinadores da vontade tornam-se, demasiadas vezes, pedagogos do crime. Prometem dinheiro e sucesso. Entregam isolamento e uma visão bastante empobrecida das relações humanas quotidianas. As plataformas digitais, que conhecem os nossos hábitos ao segundo, enchem-nos de conteúdos cada vez mais extremos, porque a indignação retém a atenção, é falada. E a atenção, já se sabe, é moeda.

Ninguém está imune. O Estudo Nacional sobre Violência no Namoro de 2026 (CIG/Art’Themis+ 2026), com 8080 jovens, concluiu que 68,2% não reconhecem, pelo menos, um comportamento abusivo como violência. Sem surpresas, o controlo continua a ser o comportamento mais legitimado. Deveríamos ficar sobressaltados com estes dados. Quando um jovem não vê violência no controlo do telemóvel do outro, no cerco às redes sociais ou na perseguição, a democracia já falhou numa das suas tarefas elementares – educar para respeitar a liberdade do outro.

Em 2024 (INE/DGPJ), foram registados 25.919 crimes de violência doméstica contra cônjuge ou análogo. Sete em cada dez dessas pessoas eram mulheres. O mais grave de tudo isto é que estes números não acusam um sexo. Acusam uma cultura. E a cultura muda-se através da lei, na escola, no seio familiar, na comunicação social, na responsabilização das plataformas digitais, na responsabilização do perpetrador.

A Madeira não pode tratar isto como uma moda. O mar não nos protege das ‘trends’ digitais. É preciso falar com os jovens, antes que falem por eles os mercadores do ressentimento. Falar de masculinidade saudável não é censurar “os machos”, é serviço público. É dizer-lhes que a dignidade não se constrói diminuindo o outro. Que respeito não é fraqueza. Que amar não é possuir. Que “ser homem”, numa democracia madura, é saber viver com mulheres livres e empoderadas. Criámos as ferramentas para permitir o empoderamento das mulheres (até ver), mas não educámos a sociedade para lidar com as mulheres empoderadas. Essa é a nossa maior falha, enquanto sociedade.

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