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Artigo de Opinião

30/05/2026 08:00

Há notícias que deviam parar um país inteiro. Notícias que deviam obrigar-nos a olhar ao espelho enquanto sociedade e perguntar: em que momento nos tornámos tão indiferentes ao sofrimento das crianças?

Nos últimos dias, Portugal voltou a confrontar-se com duas realidades profundamente perturbadoras: duas crianças estrangeiras abandonadas em Alcácer do Sal e a condenação, na Madeira, de um padrasto a 17 anos de prisão por crimes sexuais cometidos contra a enteada durante oito anos. Uma infância inteira marcada pelo medo dentro da própria casa, o lugar onde uma criança devia encontrar proteção e segurança.

Mas estes casos não aparecem do nada.

As violações dos direitos das crianças começam muito antes dos tribunais e das manchetes. Começam nas pequenas atitudes que normalizamos diariamente: o “dá um beijinho ao tio” quando a criança não quer, o obrigar a sentar ao colo apesar do desconforto, o ignorar do “não” porque “é só uma brincadeira”. Começam quando ensinamos crianças a aceitar invasões do próprio espaço para não desagradar adultos.

E continuam nas redes sociais, onde a infância passou a ser conteúdo. Fotografias, choros, momentos íntimos e humilhantes publicados sem qualquer noção de privacidade, consentimento ou dignidade. Crianças expostas antes sequer de compreenderem o que significa exposição pública.

Vivemos numa sociedade que se habituou perigosamente a assistir em vez de agir. Recentemente, um direto no TikTok mostrava uma briga com armas brancas em Câmara de Lobos. Crianças presentes. Pessoas às janelas. Centenas a assistir através de um ecrã, como quem consome entretenimento rápido. Ninguém intervém. Ninguém protege. Filma-se. Partilha-se. Comenta-se.

Enquanto nos distraímos com o ruído constante das redes sociais, os números continuam a crescer. O Relatório Anual das CPCJ de 2025 voltou a mostrar que a negligência e a violência doméstica permanecem entre as principais problemáticas nos processos de promoção e proteção. E surgem agora sinalizações relacionadas com casamentos infantis, uma realidade que muitos insistem em fingir que não existe em Portugal.

Isto devia alarmar-nos profundamente. Porque uma criança negligenciada hoje é muitas vezes o jovem em risco amanhã. Muitos casos de delinquência juvenil nascem em contextos marcados por abandono emocional, violência e trauma continuado. Os ciclos repetem-se porque continuamos a investir mais na reação do que na prevenção.

Exigimos respostas rápidas às CPCJ como se fosse possível reconstruir em meses aquilo que demorou anos a destruir. Hoje acompanhamos filhos de pais que também passaram pelas comissões de proteção. E talvez essa seja uma das nossas maiores derrotas coletivas.

Uma sociedade mede-se pela forma como protege os seus mais vulneráveis. E neste momento, a verdade é simples e dolorosa: continuamos a falhar.

Porque proteger crianças não é apenas punir agressores quando já é tarde demais. É ouvir, respeitar, educar e prevenir. É ensinar limites, consentimento, empatia e responsabilidade emocional desde cedo.

É garantir que nenhuma criança cresce a acreditar que sobreviver é o mesmo que viver.

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