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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

29/05/2026 08:00

Não sei se já escrevi isto, mas de qualquer maneira vou repetir: Tudo o que faço e fica mal feito, seja de propósito, sem querer, ou por acaso, conduz-me ao fim do mundo. (Atenção: É preciso ter em conta que há sempre muito propósito no ‘sem querer’ e no ‘por acaso’, para já não falar no ‘puro acaso’, e isto, como é óbvio, afeta bastante a consciência de cada um.) Por outro lado, quando a coisa fica bem-feita, seja lá o que for, eu permaneço no lugar onde estou, estático no centro do universo.

Interessante, não é?

Se fizer algo porreiro, não me movo. Se fizer porcaria – uma palavra, um gesto, uma atitude – vou daqui ao fundo do abismo que há em mim, em ti, em nós, e dali sigo para o fim do mundo, que é o lugar onde a espécie humana deposita diariamente o seu sofrimento, o El Dourado da sua mágoa, o altar sagrado da dor coletiva.

Às vezes, passo noites acordado por causa desta maldita viagem, noites inteiras em claro por uma culpa que só eu carrego e sinto, e, não raras vezes, a insónia traz-me à memória um indivíduo que conheci em África, quando vivia numa missão na Alta Zambézia, um tipo com ar desvairado, bué esquisito, que vestia roupa muito larga e era completamente careca, com bigode preto farfalhudo, como o bigode do filósofo Nietzsche, e o olhar desorbitado, esbugalhado, ainda por cima azul – a imagem perfeita da loucura. Eu, porém, estava habituado a cruzar-me com tipos assim nas estradas de África, gajos que pareciam malucos ou bandidos, sobretudo os brancos. Eu próprio assumi essa figura.

Bem, o gajo ficou hospedado na missão durante uma semana e na madrugada do último dia, antes de partir, ou melhor, antes de desaparecer, bateu à porta do meu quarto, no fundo do corredor. Eu estava pra ali estendido na cama, a pensar que ia morrer, por causa da tal infeção intestinal de que vos falei na última crónica. Estava muito mal. Aquilo era, de facto, grave.

Ainda assim, levantei-me e abri a porta. O gajo parecia mesmo um louco varrido, mas não me assustei. Ia perguntar-lhe o que queria, mas não foi preciso. Entregou-me três envelopes e pediu-me que os fizesse chegar ao destino em segurança, ou seja, sem passar pelo crivo dos padres.

Acho que ele se encontrava num daqueles dias em que tudo parece distante e inexistente e, não sei porquê, viu em mim o marco de correio ideal. Tenho a certeza de que aquelas cartas continham revelações brutais, daquelas só possíveis de concretizar em dia de euforia ou de morte anunciada, que são praticamente a mesma coisa.

– O que fizeste às cartas? – Perguntou-me, mais tarde, um amigo.

– Entreguei-as na DHL.

– Devias fazer o mesmo com a tua carta – disse ele.

Eu encolhi os ombros, fiquei em silêncio.

Sim, eu também tinha escrito uma carta com revelações atrozes e aguardava ansiosamente por um dia de euforia para fechar o envelope e remetê-lo ao destinatário. Mas o tempo passava e esse momento permanecia adiado. Em contrapartida, fui sendo atacado cada vez com mais frequência naquele ano por febres e diarreias. Eu não compreendia aquilo e, às tantas, comecei a pensar que alguém me andava a fazer mal, a meter veneno na comida, e só podia ser um dos padres da missão, ou todos em conjunto, ou toda a gente em África, até que percebi – e aceitei – que o problema, afinal, estava em mim.

Então, decidi partir.

É como digo: Tudo o que faço e fica mal feito conduz-me ao fim do mundo. Já quando a coisa fica bem-feita, permaneço no lugar onde estou, estático no centro do universo.

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