A conversa sobre o subsídio de mobilidade aérea começa e termina sempre no mesmo ponto: o custo. O Estado olha para os milhões gastos com as viagens dos residentes das ilhas e vê uma despesa crescente. Os madeirenses e açorianos veem um direito básico de continuidade territorial. Entre uma visão e outra existe um oceano. Literalmente.
Nos últimos anos, Lisboa habituou-se a apresentar os números do subsídio de mobilidade quase como quem exibe uma fatura incómoda. Porque os encargos aumentaram, o modelo é pesado, há necessidade de controlo. Traduzindo por outras palavras, instalou-se a ideia de que o subsídio representa um excesso que precisa de ser travado.
Curiosamente, este zelo orçamental raramente aparece com a mesma intensidade noutras geografias do território nacional, onde as ‘gorduras’ do Estado persistem de forma silenciosa.
Mas, as contas feitas em Lisboa são parciais. O Estado contabiliza o que paga, mas esquece-se do que as ilhas acrescentam ao País. E esse saldo não é pequeno.
Basta olhar para o ensino superior. Ontem, nas Conferências da Autonomia dedicadas à Educação, João Cunha e Silva recordou essa realidade. Milhares de estudantes madeirenses e açorianos sustentam, todos os anos, uma fatia relevante da economia do continente. Pagam propinas, quartos, apartamentos, alimentação, transportes, consumo diário... Levam consigo o esforço financeiro de famílias inteiras na procura de garantir formação académica aos filhos.
Para conseguirem um ‘canudo’, têm de suportar aquilo que o antigo ministro da Educação Marçal Grilo classificou como uma pesada ‘mochila educativa’. Um fardo adicional carregado apenas pelos estudantes insulares. Porque estudar fora nunca significou apenas pagar uma universidade. Significa todos os custos enunciados acima.
Durante anos, os estudantes suportaram custos absurdos nas viagens aéreas, realidade parcialmente corrigida com o programa Estudante Insular. Ainda assim, quando se esperava simplificação, como tantas vezes acontece, quem tinha a obrigação de resolver acabou por produzir novos obstáculos.
O mais curioso é que o País gosta de dizer que está ao lado da Autonomia, mas não hesita em condicionar todo e qualquer mecanismo que deveria funcionar como ferramenta de igualdade.
Hoje, mais do que nunca, quem não tem dinheiro arrisca-se a ficar do lado de fora do edifício educativo. Tem de se fazer à vida porque o País está pouco preocupado em corrigir assimetrias e tratar todos os portugueses com a igualdade que a Constituição promete, mas que os atos de quem decide insistem em desmentir.