MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

26/05/2026 00:00

Recentemente, a minha rotina mudou sem aviso. Era suposto sair do trabalho ao meio-dia e meia, mas os planos anteciparam-se. Ia fazer uma carga, mas tinha de passar primeiro pela “Fundoa” para descarregar, não (...) não era o caminho programado. Pequenas decisões. O acaso que nos coloca no sítio certo à hora certa.

À saída da via rápida, nos Viveiros, um motociclista perdeu o controlo e caiu. Eu era, provavelmente, o sexto ou sétimo carro da fila. Vi ao longe. E em menos de dois segundos, por instinto puro, ultrapassei a fila lateralmente e fui ao encontro do acidente.

Não calculei. Não ponderei. Não me perguntei o que poderia ter acontecido, o que teria causado o acidente, nada (...) Não passei pelo filtro do julgamento social. A única coisa que existia naquele momento era um ser humano ferido, e a certeza de que eu podia TENTAR ajudar.

Não estava só. Um ocupante do primeiro carro, estrangeiro, diga-se, também saiu. Apareceu mais uma pessoa (sem meu registo visual). Prontamente acionamos o 112, levou-se a mota a lugar seguro, estabilizamos o acidentado, tentamos estancar a ferida, ou demos o nosso melhor, e colocámos o triângulo. O homem estava mal. Sangrava imenso de um traumatismo numa das pernas. Mas estava acompanhado.

A resposta de emergência foi exemplar, duas brigadas da PSP e uma ambulância em pouquíssimo tempo, ninguém perguntou se estariam quase a chegar ou não. Tanto que se fala do falhanço do SRS: naquele dia, naquele momento, funcionou. E isso merece ser dito.

Mas o que ficará para sempre gravado na minha memória não foi o acidente. Foi o que aconteceu à volta.

Fiquei assoberbado com a quantidade de pessoas que passaram por ali e, em vez de parar, opinaram, como se eu, ou o outro cidadão, tivéssemos causado o acidente, achando que não ouvíamos. Outros olhavam para o acidentado com ar de julgamento. E havia ainda os que, perante o homem, usavam o telemóvel para uma fotografia. Para a posteridade. Para as redes sociais. Para o quê, exatamente?

Eu conduzia uma carrinha identificada. Talvez isso tenha contribuído para os comentários. Pouco importa. O que importa é a pergunta que ficou no ar: O que se passou com a nossa humanidade?

Vivo toda a minha vida guiado por um princípio que aprendi cedo e nunca larguei: pessoas exigentes trazem tempos fáceis, e pessoas fáceis trazem tempos exigentes. É paradoxal, mas quem o entende sabe do que falo. A exigência, o carácter, a disponibilidade para o incómodo, são essas as qualidades que constroem algo de sólido, pessoal ou coletivo.

Penso na minha filha. É nesta sociedade que ela vai crescer. É com estas pessoas que ela vai aprender o que é o outro. E pergunto-me, com genuína inquietação, não com arrogância, que exemplo estamos a deixar? Que valores estamos a transmitir quando a reação coletiva a um homem caído não é a de parar, mas a de fotografar? Nem a questionar se está ok ou se é preciso algo mais. Custaria 5 segundos para colocar esta questão? Talvez menos...

Um dos agentes que acorreu ao local agradeceu-me ter parado. Respondi que fiz o que tinha de ser feito, que nem pensei. A resposta que ele me deu ficará comigo para sempre. Não vou partilhá-la aqui. Mas ela diz muito sobre o estado das coisas quando um agente de autoridade sente necessidade de agradecer aquilo que deveria ser o comportamento mais básico e instintivo de qualquer ser humano.

Não escrevo isto para me elogiar. Escrevo porque estou preocupado. Porque esta não foi uma exceção, foi um espelho. E o que esse espelho reflete urge ser corrigido.

Ajudar o próximo não é heroísmo. Não é assunto para notícia. É o mínimo. É o que nos distingue enquanto sociedade civilizada. E se chegámos a um ponto em que parar junto de um ferido é motivo de espanto ou de agradecimento formal, então temos um problema muito maior do que qualquer crise económica ou política.

Naquele dia ajudei. Se algum dia eu precisar, e espero que nunca precise, gostaria de ter a mesma sorte. Não de ter alguém a fotografar. De ter alguém que pare. Que não pense. Que simplesmente aja.

Espero rápidas melhoras ao acidentado e também à nossa sociedade.

OPINIÃO EM DESTAQUE

HISTÓRIAS DA MINHA HISTÓRIA

22/05/2026 07:30

Após o meu último texto, publicado neste espaço, em que discorri sobre as várias significações que atribuímos ao número sete, não pude deixar de pensar...

Ver todos os artigos

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Acha que Portugal não devia participar na Eurovisão, em protesto pela presença de Israel?

Enviar Resultados
RJM PODCASTS

Mais Lidas

Últimas