Recentemente, a minha rotina mudou sem aviso. Era suposto sair do trabalho ao meio-dia e meia, mas os planos anteciparam-se. Ia fazer uma carga, mas tinha de passar primeiro pela “Fundoa” para descarregar, não (...) não era o caminho programado. Pequenas decisões. O acaso que nos coloca no sítio certo à hora certa.
À saída da via rápida, nos Viveiros, um motociclista perdeu o controlo e caiu. Eu era, provavelmente, o sexto ou sétimo carro da fila. Vi ao longe. E em menos de dois segundos, por instinto puro, ultrapassei a fila lateralmente e fui ao encontro do acidente.
Não calculei. Não ponderei. Não me perguntei o que poderia ter acontecido, o que teria causado o acidente, nada (...) Não passei pelo filtro do julgamento social. A única coisa que existia naquele momento era um ser humano ferido, e a certeza de que eu podia TENTAR ajudar.
Não estava só. Um ocupante do primeiro carro, estrangeiro, diga-se, também saiu. Apareceu mais uma pessoa (sem meu registo visual). Prontamente acionamos o 112, levou-se a mota a lugar seguro, estabilizamos o acidentado, tentamos estancar a ferida, ou demos o nosso melhor, e colocámos o triângulo. O homem estava mal. Sangrava imenso de um traumatismo numa das pernas. Mas estava acompanhado.
A resposta de emergência foi exemplar, duas brigadas da PSP e uma ambulância em pouquíssimo tempo, ninguém perguntou se estariam quase a chegar ou não. Tanto que se fala do falhanço do SRS: naquele dia, naquele momento, funcionou. E isso merece ser dito.
Mas o que ficará para sempre gravado na minha memória não foi o acidente. Foi o que aconteceu à volta.
Fiquei assoberbado com a quantidade de pessoas que passaram por ali e, em vez de parar, opinaram, como se eu, ou o outro cidadão, tivéssemos causado o acidente, achando que não ouvíamos. Outros olhavam para o acidentado com ar de julgamento. E havia ainda os que, perante o homem, usavam o telemóvel para uma fotografia. Para a posteridade. Para as redes sociais. Para o quê, exatamente?
Eu conduzia uma carrinha identificada. Talvez isso tenha contribuído para os comentários. Pouco importa. O que importa é a pergunta que ficou no ar: O que se passou com a nossa humanidade?
Vivo toda a minha vida guiado por um princípio que aprendi cedo e nunca larguei: pessoas exigentes trazem tempos fáceis, e pessoas fáceis trazem tempos exigentes. É paradoxal, mas quem o entende sabe do que falo. A exigência, o carácter, a disponibilidade para o incómodo, são essas as qualidades que constroem algo de sólido, pessoal ou coletivo.
Penso na minha filha. É nesta sociedade que ela vai crescer. É com estas pessoas que ela vai aprender o que é o outro. E pergunto-me, com genuína inquietação, não com arrogância, que exemplo estamos a deixar? Que valores estamos a transmitir quando a reação coletiva a um homem caído não é a de parar, mas a de fotografar? Nem a questionar se está ok ou se é preciso algo mais. Custaria 5 segundos para colocar esta questão? Talvez menos...
Um dos agentes que acorreu ao local agradeceu-me ter parado. Respondi que fiz o que tinha de ser feito, que nem pensei. A resposta que ele me deu ficará comigo para sempre. Não vou partilhá-la aqui. Mas ela diz muito sobre o estado das coisas quando um agente de autoridade sente necessidade de agradecer aquilo que deveria ser o comportamento mais básico e instintivo de qualquer ser humano.
Não escrevo isto para me elogiar. Escrevo porque estou preocupado. Porque esta não foi uma exceção, foi um espelho. E o que esse espelho reflete urge ser corrigido.
Ajudar o próximo não é heroísmo. Não é assunto para notícia. É o mínimo. É o que nos distingue enquanto sociedade civilizada. E se chegámos a um ponto em que parar junto de um ferido é motivo de espanto ou de agradecimento formal, então temos um problema muito maior do que qualquer crise económica ou política.
Naquele dia ajudei. Se algum dia eu precisar, e espero que nunca precise, gostaria de ter a mesma sorte. Não de ter alguém a fotografar. De ter alguém que pare. Que não pense. Que simplesmente aja.
Espero rápidas melhoras ao acidentado e também à nossa sociedade.