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Artigo de Opinião

Advogado

11/04/2026 08:00

“É tudo farinha do mesmo saco”, é uma expressão comummente utilizada para generalizar a ideia de que uma pessoa não vale nada, ou que são todos iguais, num sentido pejorativo.

Expressão essa, que se presume que tenha tido origem, no ato de guardar farinha de qualidade inferior no mesmo saco, sem distinção.

A metáfora também, mas de forma menos comum, pode significar que a farinha de boa qualidade é posta em sacos separados, para não se misturar com a de qualidade inferior.

Aqui a expressão idiomática pode ser utilizada de forma elogiosa, se a farinha daquele saco for de qualidade.

Como por exemplo, - “Aquele rapaz é tão inteligente, é mesmo farinha do mesmo saco do Pai”.

No entanto e mesmo assim, ressalta sempre uma perspetiva, “os bons com os bons, os maus com os maus”.

E nos tempos que correm, em que vivemos de novo essa tendência da polarização das opiniões contrárias, a metáfora da farinha do mesmo saco, voltou para ficar.

Isto porque, existe uma ausência absoluta de autocrítica, nunca ninguém reconhece erros ou exageros, sem ser no adversário ou na parte contrária.

Ou seja, a farinha do outro saco é que não presta.

As comparações genéricas são as mais comuns e aceites, num Mundo mais violento e intolerante.

Nesse sentido, será que podemos dizer que somos todos farinha do mesmo saco?

No entanto, o sentido pejorativo ou de crítica desta expressão é seguramente o mais utilizado.

Especialmente, em relação ao meio político, fértil nos ataques pessoais, nas considerações sobre desvios de carácter e nas desconsiderações sobre a índole das pessoas.

O cidadão comum, não quer ser devassado por aquele meio, não quer perder a sua paz social e seguramente não quer ser farinha daquele saco.

Não sendo por isso de admirar, que a maioria das pessoas estejam desinteressadas da política, e daquilo que ela representa.

Colocar todos como farinha do mesmo saco, foi também, o que fez Salazar, após o levantamento popular ocorrido na ilha da Madeira, a 4 e 9 de fevereiro de 1931, mais conhecido como a - Revolta da Farinha -.

O protesto popular era contra um Decreto de Salazar – ainda Ministro das Finanças - que estabelecia a centralização no Estado Português da importação de trigo e cereais.

O povo madeirense sentia-se abandonado e isolado, e aquele Decreto que proibia a livre importação de trigo e farinha, levou ao aumento do preço do pão, intensificando a pobreza e a fome.

Ficou conhecido na época como o “Decreto da Fome”.

Após a Revolta ter sido controlada e estando Salazar a consolidar o seu poder - ainda não era Primeiro-Ministro - para criar o regime ditatorial do Estado Novo, proferiu as seguintes palavras em relação à Madeira.

“Em toda a parte há gente que não sabe agradecer, mas uma terra inteira cheia de benefícios e desconhecedora deles, só a Madeira. E porquê? Porque no fundo deseja o que não pode ter, quer o que não é capaz de realizar e faz ideia que é ao Governo que cabe a responsabilidade dos erros e dos crimes praticados pelos seus naturais.”

Salazar, nunca perdoou a Madeira por aquela afronta, que se tivesse tido abrangência nacional, nunca existiria o Estado Novo.

E fez com que a Madeira fosse para a maioria da população, um local de pobreza, miséria e fome, colocando todos os Madeirenses como farinha do mesmo saco.

O tal saco, da farinha de qualidade inferior, de gente com características, defeitos e comportamentos iguais.

Como um Povo mal-agradecido, que deseja o impossível e incapaz de gerir os seus destinos.

Volvidos 50 anos da consagração da Autonomia Político-Administrativa da Região Autónoma da Madeira, o Povo Madeirense continua a mostrar que é grato pela sua Autonomia, concretiza os seus desejos e sobretudo, está preparado e quer continuar a decidir o seu futuro.

Voltando à nossa expressão, a utilização genérica e utilizada como arma de arremesso de ser “tudo farinha do mesmo saco”, mesmo em tom pejorativo, pode conter no saco uma farinha da elevada qualidade.

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