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Artigo de Opinião

Professora Universitária

26/05/2026 08:00

...ou Balthesar Dias, como se escrevia nos documentos da época. E porquê “página branca”? Porque a preocupação com o presente e a obsessão pelo futuro nos levou a um desprezo desdenhoso pelo passado e ao esquecimento da história. Uma vontade de implodir com o existente, muitas vezes sem propostas que o preencham, numa expectativa de mudança, que se revela apenas como a máscara do mais rigoroso conformismo baseado no desconhecimento. Um desconhecimento de que se faz medalha de mérito.

Muitos refugiam-se até na respeitabilidade de uma argumentação ousada segundo a qual a «identidade cultural» é um mito, forma de falsa consciência ou instrumento ideológico, justificando a preguiça de conhecer. Se afirmo muitas vezes aos jovens que esquecer os autores do passado prejudica o nosso crescimento intelectual e social, o desenvolvimento de uma consciência histórica, porque as obras são mapas, simuladores de voo, que ler permite compreender as raízes da nossa civilização e das instituições modernas, a maior parte das vezes sou recebida com um levantar de ombros de quem tem assuntos mais complexos e distantes das minhas preocupações para resolver.

Terá sido assim que o véu do esquecimento caiu sobre a obra de Baltazar Dias, tão famoso no seu tempo que obteve direitos de autor do rei, já que as suas obras eram copiadas e vendidas sem autorização, e que teve mesmo honras do índice dos livros proibidos de Roma. Esperava-o o pior dos destinos, maior do que aquele que fez desaparecer de circulação muitos dos seus textos ou que os modificou com o carimbo da censura, a condenação à perda da memória. Da coletiva, pública, que lhe dedicou o nome de um Teatro, mas que pouco tem feito para o manter vivo nas escolas – através, por exemplo, da sua introdução nos programas curriculares quando se dá outro dramaturgo da época, Gil Vicente, numa época áurea do teatro português –, de comemorações públicas, como um dia da memória, ou da utilização da tecnologia para divulgar conteúdos educativos e a sua produção literária a um público mais vasto.

Uma palavra de grande apreço se deve aos esforços do Teatro Baltazar Dias e da equipa da cultura da Câmara Municipal do Funchal – publicou um livro com os textos do autor – hoje esgotado –, que apoiou representações como a que trouxe a “História da Imperatriz Porcina”, encenada por Sara Barros Leitão, ao palco, com jovens atores e que, através do programa do associativismo, permitiu que diversos autores, como Alexandre Honrado, Afonso Cruz ou Miguel Real, lessem Baltazar Dias e o reinterpretassem em chave jovem, em “Baltazar Dias Descomplicado”. Mas, agora falta a Madeira torná-lo seu.

Um dos mais globais dos autores da Madeira, que continua a ser representado em São Tomé e a viver na literatura de cordel no Brasil, não pode cair na amnésia coletiva. Perante a indiferença que uma grande parte da classe política e dirigente demonstra em relação à literatura (atente-se nas respostas do Ministro da Educação à “opção” Saramago – mais ou menos como “podem dar Galileu ou Gilbert ou Brahe, é opcional, eram todos mais ou menos do mesmo século, tanto faz”, o risco é que se renuncie a uma visão mais ampla do espaço efetivo e cada vez se sinta o seu próprio mais reduzido, cheio de retórica fácil, de resumos dos livros obrigatórios dos programas escolares, de citações retiradas dos sites para brilhar, perdidos numa civilização do espetáculo que é apenas questão de narcisismo.

E espero mesmo, mesmo, de esperança sincera, que um dos jovens booktokers, únicos que parecem atentos aos livros, madeirense ou de outro lugar qualquer do mundo, pegue em Baltazar e o faça viral, desafiando, como ele, a sociedade que o autor, no século XVI, teve a audácia de provocar. Deixo o desafio.

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