MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Jornalista

9/04/2026 07:45

Cem anos de existência — seja na vida de uma pessoa ou de uma instituição — é um marco notável.

Ainda mais notável se esse percurso for recheado de trabalho, promoção do talento, cultura e contributos vários para a comunidade onde se insere.

Falo da Banda Municipal de Santana, que neste mês de abril completou 100 anos de existência. Cem anos a brotar música.

Mais do que uma banda, tem sido, ao longo do tempo, uma escola de vida. Grande parte deste percurso tive a oportunidade de o viver de perto.

Em comunidades muito pequenas, instituições como esta têm uma importância acrescida. Contribuem para a promoção da cultura e ajudam — e de que maneira! — muitos jovens a terem contacto com a música, algo que, de outra forma, seria quase impossível.

Numa zona rural, o acesso ao ensino da música, até há poucas décadas, estava quase exclusivamente ligado às bandas filarmónicas. Para além de animarem os arraiais e participarem nas procissões, as bandas funcionam como autênticos conservatórios. Escolas de música.

Na cerimónia que assinalou este centenário, impressionou-me a quantidade de jovens talentos que, depois de se iniciarem na banda, prosseguiram os seus estudos — alguns deles com destaque até internacional.

Longe vão os tempos em que os músicos eram, por vezes, gente sem qualquer tipo de instrução. Noutros tempos, os tocadores tinham pouco mais do que a quarta classe. Ensaiavam depois de um dia de trabalho na fazenda, cuidando dos terrenos ou do gado, e só depois se deslocavam até à sede da banda. Em bom rigor, trocavam a enxada ou a foice por um clarinete ou trombone. Ainda assim, era gente que tinha amor à causa, impulsionada por quem os dirigia. Era quase tudo carolice pura.

A Banda de Santana, que agora respira tranquilidade — sobretudo depois da presidência de José Carlos Abreu — nem sempre foi assim. Num passado não muito distante, este tipo de atividade nem sempre era acarinhado da melhor forma pelos poderes políticos local e regional. A banda e, sobretudo, os seus dirigentes, tinham que fazer pela vida.

Havia que arranjar formas de angariar fundos para manter a atividade. De vez em quando, surgiam pedidos de ajuda para a aquisição de alguns instrumentos. Uma das fontes de receita eram as atuações em arraiais. Naqueles tempos, também não havia carrinhas ou autocarros com o conforto de hoje para as deslocações aos mais variados pontos da ilha. Como não havia, improvisava-se. Era frequente ver-se carrinhas de caixa aberta carregadas de músicos a serem transportados para os arraiais. E, quando a chuva ameaçava, a proteção era um plástico de grandes dimensões que cobria a carroçaria do veículo.

A verdade é que a Banda Municipal de Santana foi sobrevivendo ao longo dos tempos e hoje é uma instituição centenária de referência no concelho — e não só.

Esta banda também foi pioneira em várias frentes. Foi uma das primeiras a admitir mulheres nas suas fileiras. Foi também a primeira banda da Madeira a ser liderada por uma maestrina — neste caso, Dolores Spínola, que mereceu uma justa homenagem no dia do centenário. De resto, neste dia, a banda não se esqueceu dos muitos que, ao longo dos tempos, tiveram algum papel na afirmação da filarmónica.

Da banda de outros tempos, recordo-me de dois músicos que foram quase imagens de marca durante muitos anos. Um conhecido por José Dé — um senhor de estatura baixa, forte, que tocava tuba. Para além de músico, era barbeiro e consertava relógios, sendo também conhecido pela sua boa disposição.

Outro senhor que recordo era conhecido pelo “Caixinha”, de nome João Mendonça. Estava na percussão, tocava caixa e o seu estilo franzino despertava muita curiosidade. No dia a dia, era homem que fabricava velas de cera. Dois rostos, dois mundos, dois pedaços da história viva da Banda de Santana.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Têm razão os enfermeiros em pedir escusa de responsabilidades?

Enviar Resultados

Mais Lidas

Últimas