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Artigo de Opinião

Doutorada em História / Investigadora

9/04/2026 07:35

Hoje, e por estarmos em abril, volto a escrever sobre um tema que a todos nós é muito caro. Escrevo sobre as nossas crianças e jovens. Os mais atentos, certamente já se deram conta de que um pouco por todos os municípios portugueses, e nos da nossa Madeira não há exceção, vemos grandes laços azuis, idealizados em diversos materiais, estrategicamente colocados, nos pontos centrais das cidades, para assinalar o Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância. “Serei o que me deres... que seja amor”. Este é o tema da campanha do Laço Azul, que ambiciona, ano após ano, agitar consciências e sensibilizar, para a prevenção da negligência e do abuso infantil, sempre pela promoção dos direitos das crianças.

Muito já se falou sobre este movimento internacional, que ocorre todos os anos, em abril, desde o seu início, nos idos anos de 1989. Foi pela iniciativa e pela voz de uma avó americana, Bonnie Finney - que escolheu, entre todas as cores, a cor azul, para simbolizar as nódoas negras do próprio neto, e de todas as crianças vítimas de abuso -, que surgiu este movimento de alerta para a necessidade de proteção e amor a todas as crianças e jovens. É verdade, muitos dirão que muito já se falou, muito já se escreveu, sobre esta emergência social, sobre esta necessidade de se cuidar do futuro, das nossas crianças e jovens, hoje, e todos os dias, de todos os meses do ano, contudo, continuamos longe de alcançar essa proteção e esse amor que deveria ser tão natural, num mundo normal. “Serei o que me deres”: E se o que damos é Medo e Violência? Nem consigo escrever sobre as crianças e jovens que, neste momento, estão entre guerras.

Hoje, pelas 6h30, ao chegar à cozinha, a primeira notícia que ouvi, na minha rádio de sempre, a Renascença, traduziu-se em números assustadores: 13.039 crianças e jovens vítimas de crime e violência teriam sido apoiadas, entre 2022 e 2025, pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Segundo os dados divulgados, este número representa um aumento significativo da vitimação neste grupo (52,4%) ao longo dos últimos quatro anos. Foram registados 23.935 crimes e outras formas de violência contra crianças e jovens. Um número que não consigo qualificar, nem quantificar. É assustador. Faz-me sentir tão pequena, perante a grandeza do problema.

Esta é uma realidade que nos convoca a todos: como assim, em Portugal, foram apoiadas, em média 272 crianças e jovens, por mês, o equivalente a 63 por semana, e nove, por dia? O que é que estamos a fazer às nossas crianças e jovens? Os recentes dados da APAV desenham um retrato inquietante da nossa realidade social, onde a violência doméstica continua a ser o flagelo dominante, representando 61,7% das ocorrências. No entanto, é no espectro dos crimes sexuais que surge o sinal de alerta mais estridente: o abuso sexual de crianças disparou 121,5% entre 2022 e 2025, saltando de 390 para 864 casos. Estes números ganham um rosto particularmente vulnerável quando olhamos para a demografia das vítimas — maioritariamente mulheres (59,4%) e crianças numa fase crucial de desenvolvimento, com especial incidência na pré-adolescência (entre os 11 e os 14 anos). Mais perturbador ainda, é constatar que o perigo mora, literalmente, ao lado: em cerca de 40% das situações, o agressor é o próprio pai ou mãe, revelando que o espaço que deveria ser de maior proteção é, para muitos, o cenário do crime.

Perante tanto sofrimento, não podemos ficar indiferentes. Por tudo isto, deixo aqui os contatos da Linha de Apoio à Vítima (116 006) e dou conta do chatbot, sempre On. Que abril seja mais amarelo, a cor da felicidade para as crianças.

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