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Artigo de Opinião

Há experiências humanas que escapam à linguagem. A parentalidade é uma delas. Não começa apenas no momento do nascimento de um filho.

Inicia-se no instante em que alguém percebe, muitas vezes com um misto de deslumbramento e receio, que passou a ser responsável por um outro ser humano, totalmente dependente, totalmente vulnerável.

Ser pai é entrar num território desconhecido. Não há mapa definitivo, nem garantias. Há, sim, um caminho que se constrói no dia a dia, entre tentativas, dúvidas e pequenas conquistas. A ciência tem vindo a mostrar aquilo que tantas famílias sentem: a parentalidade transforma.

O cérebro adapta-se, reorganiza-se, torna-se mais atento, mais sensível, mais disponível para cuidar. Mas nenhuma evidência científica consegue traduzir completamente o impacto emocional desta mudança.

Porque ser pai é, também, confrontar limites. Há o cansaço, tanto físico como emocional — que se instala sem pedir licença. Há noites interrompidas, rotinas desfeitas, uma nova relação com o tempo. Há momentos de dúvida, em que se questiona se será suficiente, se estará a fazer o melhor possível. E há dias em que a exaustão parece maior do que a capacidade de resposta.

Importa dizê-lo com clareza: estas experiências não são sinal de falha. São parte integrante da parentalidade.

O ideal de perfeição, tantas vezes alimentado socialmente, não só é irrealista como pode ser profundamente injusto. Nenhum pai está sempre certo. Nenhum pai está sempre disponível. E ainda assim, muitos são suficientemente bons — e isso, como nos lembra a psicologia do desenvolvimento, é mais do que suficiente.

No meio da exigência, existe também uma dimensão profundamente transformadora e bela.

A teoria da vinculação mostra que não são os grandes gestos que moldam o desenvolvimento de uma criança, mas a consistência dos pequenos: um colo oferecido, uma resposta ao choro, um olhar que acolhe.

É nessa repetição simples, quase invisível, que se constrói segurança, confiança e sentido de mundo.

Há ainda algo de subtil, mas essencial, na relação entre pai e filho/a: uma espécie de sintonia que se desenvolve com o tempo. Um ajuste mútuo, feito de tentativas e encontros, onde se aprende a reconhecer sinais, ritmos, necessidades. Não se nasce pronto. constrói-se.

E é nesse processo que muitos pais descobrem novas formas de sentir, de escutar, de estar.

Ser pai é, muitas vezes, viver entre extremos: entre o medo de falhar e a capacidade de amar de forma quase ilimitada. É sentir fragilidade e força no mesmo instante. É perceber que não há preparação total possível — e que isso não impede a construção de um vínculo seguro e significativo.

Talvez a mensagem mais importante seja esta: a parentalidade não exige perfeição, exige presença. Exige disponibilidade para tentar, para errar, para reparar. Exige humanidade.

A todos os pais: aquilo que fazem, todos os dias, importa. Mesmo quando parece pouco. Mesmo quando parece insuficiente. Porque, para uma criança, a presença imperfeita, mas genuína, de um pai é, muitas vezes, tudo.

E para uma mãe com receios, com angústias, com porventura ainda mais e maiores responsabilidades do que o pai, a presença firme, atenta, vigilante e sempre carinhosa do seu companheiro, transporta uma segurança imensurável.

E não, não há tarefas menos próprias para um pai. Não existem limites àquilo que se pode fazer por uma bebé, por uma criança. Existem, isso sim, dúvidas naturais, próprias deste novo, e grandioso, papel.

E, no meio de tantas dúvidas, há uma certeza silenciosa: ninguém sai igual desta experiência. Porque, quando nasce um filho, nasce também, vezes sem conta, um pai em construção.

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