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Artigo de Opinião

GATEIRA PARA A DIÁSPORA

7/04/2026 07:30

Este ano tive pela primeira vez a oportunidade de participar no Festival das Migrações, no Luxemburgo, um país pequeno em tamanho, mas grande como o mundo que nele habita, cerca de 180 nacionalidades. Entrávamos pelo aroma do café etíope e continuávamos por esse mundo adentro. Na banca maliana, um homem alto disse-me «Viens!» (Vem!) e eu disse-lhe que passaria mais tarde; «on t’attends!» (esperamos por ti!). É bom saber que há alguém à nossa espera.

A impossibilidade de ir até à Madeira, no dia 21 de março, dia da minha mãe, da Primavera no hemisfério norte – pena que não tenham informado a tempestade Thèrese do facto —, dia contra o racismo e dia mundial da poesia — que, não por acaso, partilham o mesmo dia —, levou-me a um dos bairros recentes da cidade do Luxemburgo, apartado do sol, mas mergulhado na humanidade. O Festival incluía também o Salão do Livro e das Culturas. Aí, pela mão da incansável Librairie Pessoa — que contribui para a difusão da literatura portuguesa em terras luxemburguesas —, assisti a um encontro com os escritores Miguel d’Alte e Lourenço Seruya sobre romances policiais portugueses.

Muito apreciei os petiscos, e as pessoas que estes me fizeram conhecer — como a Pati da República Democrática do Congo, país que, mais de 50 anos depois, passou à fase final do campeonato do mundo de futebol, integrando o grupo de Portugal —, e que frango e bolinhos, lembrando as malassadas artesanais madeirenses, as iguarias marroquinas, curdas e sírias (ainda guardo no palato da memória o sabor dos doces, que também pude provar, da pastelaria árabe Al Shami, vindos do bairro bastante miscigenado de Bonnevoie). Provei estes últimos no espaço da Municipality 101 (Município 101, tendo o Luxemburgo 100 municípios), de Mohammed Zanboa, o arquiteto e fotógrafo sírio que dedicou a sua tese de mestrado, After Arrival (Depois da Chegada), ao direito à habitação e à «justiça espacial». Recordo que apenas um dos mais de 70 centros de acolhimento dos requerentes de asilo e refugiados no Luxemburgo aloja cerca de 1200 pessoas, mais do que os habitantes do mais pequeno município do país, Saeul. A tarefa agora é de imaginar e pôr em prática esse município adicional, quiçá transnacional, e povoá-lo de cidadãos de pleno direito. Eu já aderi!

A banca da organização Movement France – sediada na bonita cidade lorena de Nancy –, e os seus produtos P3: Plastique, Projet, Pochette (Plástico, Projeto, Pasta) foi uma revelação. No Burquina Faso, muitas pessoas bebem água em saquetas plásticas que são depois atiradas para o chão, o que provoca um grave problema de gestão de lixo. Assim, esta associação propôs-se incentivar a recolha destes resíduos, e, a partir deles, criar objetos onde se utiliza este plástico, remunerando as mulheres que participam no projeto, como também quem traga o plástico aos pontos de recolha. Esta associação tem também estes produtos à venda na loja solidária La Boussole (A Bússola), em Metz (França), a mesma designação que o Presidente da República português utilizou para a Constituição, nas celebrações do seu 50.º aniversário.

Ouvi também a escritora e política sérvio-italiana, Dijana Pavlović, falar das mulheres na cultura cigana como portadoras da magia e da cura (que, como diz a poetisa angolana Ana Paula Tavares, se poderá fazer com remédios, mas sobretudo pela palavra). Saberá disso a astronauta da missão Artemis II que, em princípio, no dia em que vos escrevo, estará a observar a Lua? Ouvi num programa de rádio que há «sonhadores científicos» que querem construir na face escondida desse astro um grande radiotelescópio para «escutar o universo», som que poderia ir até aos «ecos do Big Bang», o que já não se pode fazer da Terra dado o nosso nível de ruído. Os astronautas dizem que o fazem em nome da humanidade, outros dizem que os primeiros a lá chegar são os que imporão as regras do comércio espacial. Quem ganhará?

Na escuta do universo, celebrou-se também, no início de abril, o 30.º aniversário da RDP África, a mesma que está impedida de trabalhar na Guiné-Bissau, onde foi morto há poucos dias o ativista Vigário Luís Balanta, de 35 anos, porque defendia um país democrático. Eu continuarei a ouvi-lo/a.

O jornal português na diáspora, Bom Dia, que celebrará os seus 25 anos em julho, aproveitou o Festival das Migrações para publicar o livro 60 anos Portugueses no Luxemburgo — 30 Histórias, com a coordenação de São Gonçalves e publicado pela Oxalá Editora, uma editora na diáspora, que apresenta o testemunho de alguns daqueles que rumaram ao Luxemburgo. Catarina Salgueiro Maia, que também faz parte do Bom Dia, e que é a protagonista de um documentário que está a ser rodado, estava também presente e ficou-se a saber que voltará a Portugal em breve porque, explicou, a mãe está a ficar com uma certa idade e «as filhas precisam mais da avó do que 3 semanas por ano». Houve muito, muito mais neste Festival, como a discussão sobre as mutilações genitais femininas em contexto migratório, o realizador nascido no Irão, filho de emigrantes afegãos da minoria hazara, e exilado em França, Reza Sahibdad, cujo percurso se atravessou com o meu através da sua banda desenhada Hazara Blues, e com o seu documentário Welcome to Paristan (Bem-vindo ao Paristão) sobre a comunidade afegã em Paris — o esmero com que Mim, o homem afegão que a câmara acompanhava no seu restauro de sapatilhas de marcas conhecidas para as revender, restaurando vidas, é algo que continua a me impressionar.

No artigo Amanhã, em Jerusalém, enforcamos Cristo, publicado no PÚBLICO, Alexandra Lucas Coelho coloca-nos a questão fundamental desta Páscoa: sabendo que Israel decidiu voltar à pena de morte, em troca da aprovação do orçamento — os 30 dinheiros —, visando os palestinianos, e que, citando um colono israelita na Cisjordânia ocupada, é a lei e está acima da lei, «[q]ue pensam os cristãos humanistas de tudo isto na Páscoa de 2026?».

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