O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), o madeirense José Ornelas, defendeu hoje a necessidade de regular as migrações, mas considerou que nada justifica processos desumanos ou tempos de espera humilhantes.
“O aumento do número de migrantes é também um desafio crescente. Regular os fluxos migratórios é necessário, mas nada pode justificar processos desumanos, tempos de espera humilhantes ou formas de integração insuficientes”, afirmou José Ornelas, em Fátima, na abertura da assembleia plenária da CEP.
No seu último discurso enquanto presidente da CEP – nesta assembleia que termina na quinta-feira vai ser escolhido o seu sucessor -, o também bispo da Diocese de Leiria-Fátima salientou que “uma sociedade justa reconhece nos migrantes” pessoas que “têm um rosto e que procuram um futuro de esperança e dignidade” e que dão “um contributo fundamental para a sustentabilidade” do país.
“Legitimar a exclusão, a hostilidade ou o desprezo são atitudes que contradizem o Evangelho e que não contribuem para a afirmação de uma sociedade justa, aberta e a pensar num futuro melhor para si e para o mundo”, declarou.
Antes, José Ornelas referiu-se aos conflitos no mundo e às fragilidades sociais do país.
“A guerra, a instabilidade internacional e as suas consequências sobre o nosso dia a dia, a pobreza crescente, a fragilidade de tantas famílias, as dificuldades de acesso à habitação e à saúde, o desencanto de muitos jovens e o sofrimento silencioso e solitário de tantas pessoas idosas interpelam-nos e recordam-nos que a Igreja deve permanecer junto das feridas e esperanças da sociedade”, observou.
Por outro lado, o bispo alertou que, “no plano social e político crescem formas de desilusão, de protesto e de radicalização que não podem ser lidas superficialmente”, avisando que “há cansaço e desconfiança”, o que “abre espaço a populismos e a formas de fazer política que se alimentam mais do medo e da manipulação do que da busca sincera de soluções”.
No discurso, em que fez o balanço dos seus dois mandatos (seis anos no total) à frente da CEP, José Ornelas lembrou a visita do Papa Francisco por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, o caminho sinodal, os abusos sexuais na Igreja Católica, e a pandemia de covid-19 e outras crises naturais ou económicas.
Neste último aspeto, recordou as recentes tempestades que assolaram sobretudo a região Centro, com “consequências e feridas que vão demorar” a ser saradas, e destacou a “vaga de solidariedade “para acudir, intervir e participar” na reparação.
Sobre os abusos, reiterou o pedido de perdão e assumiu que “este foi, e continua a ser, um caminho de purificação e de reconciliação com o passado”, doloroso e necessário, que “expôs feridas profundas” e “obrigou a uma consciência mais séria da responsabilidade da Igreja perante os mais vulneráveis”.
O presidente da CEP adiantou que se está “a terminar uma etapa do processo de compensações financeiras às vítimas”, e admitiu que “nem sempre a intencionalidade subjacente” ao processo, que “tem também o propósito de ajudar a uma nova cultura e proteção e cuidado na sociedade portuguesa, tenha sido convenientemente expressa ou sentida e que haja soluções que tenham ficado aquém das expectativas de algumas pessoas”.
Porém, “o caminho não termina aqui nem pode voltar atrás”, disse.
“A Igreja em Portugal precisa de consolidar uma verdadeira cultura de proteção e cuidado. Não se trata apenas de responder ao passado, mas de mudar práticas, reforçar a prevenção e tornar a Igreja num lugar seguro e mais coerente com aquilo que professa”, realçou.
Segundo José Ornelas, “depois deste caminho, a Igreja em Portugal sabe que tem ainda muito a aprender, mas sabe também que adquiriu uma experiência que pode ser partilhada com outras instituições da sociedade, ao serviço do bem comum, na prevenção, no cuidado e na proteção dos mais vulneráveis”.