O primeiro romance ficcional de Hugo Amaro foi lançado esta tarde no Colégio dos Jesuítas, com coapresentação de Edgar Silva e de Miguel Silva Gouveia.
‘Na Linha da Pobreza’ é o título da narrativa situada entre o período do Estado Novo e o pós-25 de Abril de 1974, tendo com personagem principal uma Rosa e como cenário uma “ilha da costa africana do Atlântico”.
Inspirado na obra, Edgar Silva leu um texto, da sua autoria, que intitulou ‘Rosa dignamente ousou viver’, em que fez um paralelo entre Rosa e Blimunda, de Memorial do Convento (de Saramago), duas personagens, segundo ele, “que escapam ao modelo feminino dominante, causam desconforto social, possuem interioridade autónoma”.
“Quem, como o Hugo Amaro nos coloca a dialogar com esta Rosa, sabe que está a contribuir para a modificação do nosso mundo”, concluiu assim a intervenção o ex-deputado.
Miguel Silva Gouveia também aguçou a leitura, dizendo que “este livro vai pôr muita gente em bicos de pés”. Destacou a “realidade crua” descrita pelo autor e questiona se será mesmo ficção. “Poderia ser no Funchal”, lançou a provocação. O antigo presidente da autarquia funchalense, vislumbrou em ‘Linha da Pobreza’ uma “memória coletiva transformada em romance” e diz que é uma obra para pôr o leitor a pensar.
Hugo Amaro falaria logo de seguida sobre a importância dessa memória, lamentando os “saudosismos” que o levam a ouvir que “antigamente é que era bom”. Escreveu o livro para ajudar a criar a memória de um “período negro” para que “o passado não se repita”.
Dito pelo autor, e também por Miguel Silva Gouveia, o leitor estará perante uma obra geradora de desconforto, sob diversos aspetos.
Hugo Amaro avesso a descrições eufemísticas da realidade, fez por “retomar a crueza das coisas” e assume ter usado intencionalmente “uma linguagem crua, até pornográfica”.
O lançamento do livro coincidiu com a formalização de uma parceria entre o Conselho Cultural da Universidade da Madeira e o Grémio Literário da Madeira, representados, respetivamente por Ana Isabel Moniz e Vasco Brás. Enquanto decorria a sessão, a artista Laura Carvalheira fez um desenho alusivo à obra de Hugo Amaro.