MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

DE LETRA E CAL

13/04/2026 08:00

Há uns dias, falava com uma amiga sobre os vizinhos da nossa infância. Era um tempo onde essa ideia de vizinhança se fazia de uma proximidade e partilha que hoje já só existe na memória.

Hoje, os vizinhos são praticamente desconhecidos que não habitamos, mas, na infância, essa vizinhança fazia-se família, lugar de partilha, casa expandida.

Éramos como uma só realidade, embora diferentes nos hábitos e nas manias, o que tornava a experiência de vizinhança ainda mais curiosa.

A minha vizinhança era feita de pessoas reais, mas com magia dentro.

A vizinha que tinha uma galinha de estimação que a perseguia para todo o lado, a outra vizinha que resgatava brinquedos do lixo para uma nova vida, a vizinha que tinha gatos e um terraço para onde todas as bolas dos nossos jogos teimavam em cair. Era uma atração fatal, quase tão forte como a que sentiam os nossos gatinhos que acabavam por escolher aquela casa onde não tinham regras nem lugares proibidos.

E depois havia aqueles vizinhos que eram uma extensão da nossa casa. A casa do senhor Freitas e da senhora Nazaré, com os seus três filhos, companheiros de brincadeiras na primeira infância, de amores impossíveis na adolescência, de aventuras entre o Funchal e a casa da avó no Faial, lugar mágico com cama de palha e o mar ao fundo, azul de tempestade.

Era uma vizinhança feita da lentidão desse tempo distante. Demorávamos a chegar aos lugares, demorávamos a sair da nossa idade. Os dias eram longos e as noites imensas. Parecia que iríamos ser sempre daquele lugar, daquele tamanho, daquela pertença, como se o tempo ali estivesse suspenso nas férias de verão ou no encanto renovado do Natal.

Os anos demoravam nos meses, os dias nas semanas, e as horas tinham a calma certa que nos permitiu crescermos sem darmos por isso.

Os miúdos da vizinhança tinham a mesma medida da nossa alma. Os filhos da senhora Cecília e do senhor Henrique partilhavam connosco a alegria desse espaço expandido da aventura de crescer. Chegávamos a todo o lado: à escadaria, ao beco secreto, à rocha que escalávamos com perícia e alguns arranhões.

Assistíamos, com surpresa, ao chegar da cidade: os primeiros apartamentos, sem quintal como o da nossa casa, mas com aquela magia de toda a gente estar arrumada numa espécie de gavetas que subiam mais alto no céu. Com as gavetas foram-se as bananeiras e as rãs deixaram-se de ouvir. A música da infância é a primeira coisa a desaparecer. E sem música não há coreografia, nem dança, nem história e o palco, o nosso chão, de repente, é já outro.

Impercetivelmente, os vizinhos foram desaparecendo. Uns cresceram, outros chegaram ao fim da linha da vida, e, com esse fim alheio, veio a consciência da nossa própria mortalidade, ou, pior ainda, a consciência da mortalidade dos nossos.

De repente, já não cabíamos naquele lugar feito de várias ausências. Em nós uma ausência silenciosa fazia o trabalho artesanal da despedida. Estávamos a caminho de uma nova vizinhança de nós e dos outros, mas já nada seria como antes. Os vizinhos ficaram mais silenciosos do que as rãs e muitos de nós habitavam agora casas mais perto do céu, mas bem mais distantes da verdade que fomos.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Têm razão os enfermeiros em pedir escusa de responsabilidades?

Enviar Resultados

Mais Lidas

Últimas