Há uns dias, falava com uma amiga sobre os vizinhos da nossa infância. Era um tempo onde essa ideia de vizinhança se fazia de uma proximidade e partilha que hoje já só existe na memória.
Hoje, os vizinhos são praticamente desconhecidos que não habitamos, mas, na infância, essa vizinhança fazia-se família, lugar de partilha, casa expandida.
Éramos como uma só realidade, embora diferentes nos hábitos e nas manias, o que tornava a experiência de vizinhança ainda mais curiosa.
A minha vizinhança era feita de pessoas reais, mas com magia dentro.
A vizinha que tinha uma galinha de estimação que a perseguia para todo o lado, a outra vizinha que resgatava brinquedos do lixo para uma nova vida, a vizinha que tinha gatos e um terraço para onde todas as bolas dos nossos jogos teimavam em cair. Era uma atração fatal, quase tão forte como a que sentiam os nossos gatinhos que acabavam por escolher aquela casa onde não tinham regras nem lugares proibidos.
E depois havia aqueles vizinhos que eram uma extensão da nossa casa. A casa do senhor Freitas e da senhora Nazaré, com os seus três filhos, companheiros de brincadeiras na primeira infância, de amores impossíveis na adolescência, de aventuras entre o Funchal e a casa da avó no Faial, lugar mágico com cama de palha e o mar ao fundo, azul de tempestade.
Era uma vizinhança feita da lentidão desse tempo distante. Demorávamos a chegar aos lugares, demorávamos a sair da nossa idade. Os dias eram longos e as noites imensas. Parecia que iríamos ser sempre daquele lugar, daquele tamanho, daquela pertença, como se o tempo ali estivesse suspenso nas férias de verão ou no encanto renovado do Natal.
Os anos demoravam nos meses, os dias nas semanas, e as horas tinham a calma certa que nos permitiu crescermos sem darmos por isso.
Os miúdos da vizinhança tinham a mesma medida da nossa alma. Os filhos da senhora Cecília e do senhor Henrique partilhavam connosco a alegria desse espaço expandido da aventura de crescer. Chegávamos a todo o lado: à escadaria, ao beco secreto, à rocha que escalávamos com perícia e alguns arranhões.
Assistíamos, com surpresa, ao chegar da cidade: os primeiros apartamentos, sem quintal como o da nossa casa, mas com aquela magia de toda a gente estar arrumada numa espécie de gavetas que subiam mais alto no céu. Com as gavetas foram-se as bananeiras e as rãs deixaram-se de ouvir. A música da infância é a primeira coisa a desaparecer. E sem música não há coreografia, nem dança, nem história e o palco, o nosso chão, de repente, é já outro.
Impercetivelmente, os vizinhos foram desaparecendo. Uns cresceram, outros chegaram ao fim da linha da vida, e, com esse fim alheio, veio a consciência da nossa própria mortalidade, ou, pior ainda, a consciência da mortalidade dos nossos.
De repente, já não cabíamos naquele lugar feito de várias ausências. Em nós uma ausência silenciosa fazia o trabalho artesanal da despedida. Estávamos a caminho de uma nova vizinhança de nós e dos outros, mas já nada seria como antes. Os vizinhos ficaram mais silenciosos do que as rãs e muitos de nós habitavam agora casas mais perto do céu, mas bem mais distantes da verdade que fomos.