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Artigo de Opinião

ÀS VEZES VOO. ÀS VEZES CAIO

Jornalista

6/04/2026 03:30

Houve um tempo em que soube desentender a noite e ocupar o lugar antes dos olhos. Uma penumbra escura aquecida dentro das mãos vagueava através do pretexto para o nascimento de um rosto, e eu podia simplesmente pousar sobre a pele de um regresso ou, como a criança, afastar de súbito o mistério da beleza.

Houve um tempo em que o quarto era lento e as flores estremeciam primeiro. E o corpo não era um erro nem tinha um nome; e todas as horas eram reparáveis. O mar existia como um vulto profundo onde a luz se esgotava, onde o silêncio despontava de garras desconhecidas. Consolação.

Como será entrar no peito proibido? Que veia poderá ser aberta até ao fim num movimento único e sem cálculo? Não resta já tempo para ferir um só músculo, e, ainda assim, sobra-nos a cinza do poema que o fogo falhou. Há-de ser para sempre uma falha contra a anulação do corpo.

E agora que o tempo dizimou o sangue da última escarpa e o mar quase não a reconhece, as mães inclinam-se para tecer o fio da transpiração invisível de Deus. Justamente agora, enquanto tudo ascende e se manifesta sem o consentimento da terra – longe – dentro do atordoamento da noite e de todos os seus vagares, numa tempestade de intermináveis clamores que nos cerram as pálpebras.

A inocência é, no fim, esta ferida que arde onde termina o fiapo do corpo, uma leve respiração que persiste no nó da irrealidade, na brutalíssima insolvência do desejo.

Eu podia infringir as mais fundas horas para indagar a noite, podia torná-la mais escura só com a sombra das minhas mãos. Se eu não quisesse, podia até encontrar uma noite doada vertida de um vão animal em silêncio. Nem todos vigiam a noite e são poucos os que se enternecem com o absurdo – a beleza é um alvoroço que nenhuma consciência pode reatar; e ainda que toda a fé se abata sobre nós para forjar o brilho, haverá sempre um tempo intacto e incerto para a imitação do vento, para as flores submersas que invadem subliminarmente a vaga desfeita.

Se não houver tempo, haverá ainda o sopro ínvio, um verso inverosímil tecido à velocidade dos dedos das mães – esse incalculável milagre sobre o fio imperfeito que desce ao mar. Espuma inventada para a última escuta.

Susana de Figueiredo escreve à segunda-feira de 4 em 4 semanas.

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