Ser verdadeiramente social e democrata é considerar as necessidades da sociedade como o seu ponto de referência, opor-se ao privilégio e à precariedade, lutar pela igualdade, valorizar o poder legítimo do Estado, ser ecologista, pró-europeu, antifascista e dialogante pela paz. É defender o bem comum, o bem-estar social, o rendimento básico, o salário mínimo, os direitos dos trabalhadores e a qualidade do trabalho, da proteção social e do lazer. Principalmente, é não entender o reformismo como forma de aproveitar as questões sociais para satisfazer as necessidades do capitalismo global desenfreado.
Num momento em que os direitos dos trabalhadores estão ameaçados com uma reforma que nos fará recuar décadas — colocando os jovens, para dar só um exemplo, numa eterna situação de precariedade —, quando a proteção de direitos humanos adquiridos é retirada num acesso de falsa moral e ausência de solidariedade e humanismo, quando a AD vai de braço dado com o Chega, como no caso da escolha dos juízes do Tribunal Constitucional, com Montenegro a deixar Ventura ser o porta-voz de alianças, quando os liberais entregam saúde, educação e cultura à iniciativa privada, sou mais orgulhosamente socialista e democrata.
Porque sinto que tenho de estar do outro lado do passeio. Porque sei também que socialistas e grande parte dos sociais-democratas sabem que pertencem aos dois partidos estruturantes da nossa democracia e que não estão dispostos a deixar passar os que optam pelo populismo, colocando em perigo a liberdade. O que une socialista se sociais-democratas é precisamente a inspiração nos princípios da democracia parlamentar, no respeito dos direitos individuais e da liberdade (incluindo a liberdade de mercado) e apoio forte ao Estado-providência. Isto porque valoriza as mulheres e os homens, todos, independentemente de etnias e raças, origens sociais e escolhas de vida, visando alcançar uma maior equidade social e corrigir os “defeitos” do mercado.
A social-democracia, representativa e parlamentar, defende intervenções económicas e sociais em prol do interesse geral e do bem-estar, promovendo a justiça social dentro da estrutura de um sistema político liberal-democrático e de uma economia global.
Dá voz, não a tira. Faz crescer, não destrói. Entende que numa sociedade justa não se pode, moralmente, aceitar que muitos vivam em dificuldades para lá dos muros dos privilegiados. Não cria medos, dá segurança. Não ensina ódios, mas promove a ideia cristã-humanista do próximo. Não cria crises e inimigos, une.
O discurso populista é também um discurso contra a autonomia. E também aqui sou socialista e democrata, porque quando se elegem como adversários da autonomia os externos, a sempre proclamada mentalidade “centralista e colonialista”, e internos, os medrosos e submissos, estamos a recuperar discursos do passado que só nos vitimizaram e desresponsabilizaram.
Muito me admira que partidos que se apresentam como progressistas se alimentem de inimigos, quando a autonomia nasce da comunidade, da capacidade de cada indivíduo, num quadro moral e ético, conseguir cumprir os seus anseios. A autonomia é poder comprar uma casa, estudar, ter um emprego digno, ter esperança para o futuro dos filhos. O inimigo não está fora, nem no medo com que dentro aprendemos a viver, está em quem nos tira a capacidade de sonhar a autonomia regional como autonomia da comunidade baseada na autonomia individual. Sem ódios e olhar-se no espelho como o responsável do seu presente. Isso é ser adulto em plena liberdade. Por isso, não caio e levanto-me pela verdadeira social-democracia humanista.