O partido Chega continua a colecionar os seus cromos de acontecimentos a uma velocidade incrível. Um partido que em tão pouco tempo, dizendo mal de tudo e todos, se tornou possivelmente o recordista em escândalos por pessoa eleita, uma métrica que no caso do Chega vai atingindo contornos confrangedores.
No início, quando André Ventura começou a aparecer, houve a ideia que mais valia não falar muito do partido Chega, pois considerava-se que era preferível não dar destaque, na esperança que, dessa forma, se estaria a limitar o seu crescimento. Infelizmente tal abordagem não foi claramente a melhor, e fruto disso, o partido cresceu sem contraditório, atingindo os patamares que hoje são visíveis, tornando-se o segundo partido com mais deputados, apesar de ser o terceiro em número de votos.
Uma coisa é certa, e é preciso ter em atenção, a democracia só permite um tipo de voto, quando votamos num partido, votamos por inteiro, não votamos para protestar apenas, não votamos para ser governo apenas, nem votamos para receber uma casa ou nos arranjarem materiais para as obras, votamos por inteiro. É o resultado de todos os votos que definem a ação que esse partido poderá ter no futuro. Portanto, um dia pode ser que um voto de protesto se torne num voto de eleger um governo.
Nas eleições autárquicas de 2021, o partido Chega elegeu 19 vereadores distribuídos pelo país. Desses 19 eleitos, 11 ou abandonaram o partido ou renunciaram aos cargos, ou seja, em quase 60% dos seus eleitos. Este é um padrão que se tem vindo a notar nos eleitos do Chega que demonstra bem a instabilidade que representam. Falar dos outros é fácil, o problema é colocar em prática quando são chamados a fazer.
Já nas eleições autárquicas de 2025, este partido elegeu 137 vereadores, apesar de estarem à espera de crescer muito mais, ficaram em terceiro lugar, alavancados pela sua mensagem de protesto e pelo seu líder nacional.
Acontece que depois da febre eleitoral, vem as consequências. E as consequências estão bem à vista. No continente somam-se mais uma vez os casos, onde demissões sucedem-se. Mas aqui na Madeira também temos muito a apontar, e ainda aqui vamos.
Nas eleições de outubro de 2025, o Chega elegeu na Madeira 5 vereadores e 1 presidente, em São Vicente. Em 5 meses apenas, já 2 vereadores desvincularam-se no Funchal, por divergências com o partido, que quis impor uma assessora à revelia dos eleitos. Em São Vicente, mais 2 vereadores a quem foram, para já, retirados os pelouros, ou seja, em confronto aberto com o presidente. Isto é o mesmo que dizer que 80% dos vereadores do Chega na Madeira estão em litígio com as orientações do partido, em bom rigor, só falta 1 em Câmara de Lobos.
Neste momento a Câmara Municipal de São Vicente está ingovernável, com acusações mútuas entre vereadores e presidente da Câmara Municipal, com o presidente a pedir a renúncia de mandato dos vereadores e por outro lado os vereadores a pedirem a renúncia do presidente. Que fique claro, para haver eleições intercalares na Câmara Municipal, seria necessária a renúncia, em bloco, dos vereadores eleitos e não eleitos para esgotar as substituições e assim o executivo ficar sem elementos suficientes. Algo que, convenhamos, muito provavelmente não vai acontecer. Portanto, estamos a ver que a Câmara Municipal de São Vicente, vai se arrastar até ao final do mandato, com um presidente fragilizado, incapaz de assumir o controlo do Município.
É aqui que se vê, mais uma vez, as consequências do voto. Aquilo que era para ser um voto de protesto, acabou por ser um voto que levou à ingovernabilidade de um município. A política deve ser encarada com sobriedade, cada partido com as suas ideologias, concordemos com elas ou não, mas engane-se aquele que pensa que é na crítica constante, que é apontando o dedo ao outro que iremos resolver alguma coisa.