E se lhe dissessem que, em Portugal, um avião comercial cheio de passageiros caía todos os meses?
Imagine um Airbus A320 com cerca de 150 pessoas a bordo a despenhar-se regularmente. O país pararia. Abririam telejornais em direto, haveria investigações, comissões parlamentares, especialistas a tentar perceber o que falhou e uma exigência imediata de responsabilidades. Ninguém aceitaria que uma tragédia destas se repetisse.
Agora, imagine que isso acontecesse seis vezes por ano. Seria intolerável.
E, no entanto, há uma tragédia muito semelhante que acontece todos os meses, em silêncio, dentro dos hospitais portugueses.
Segundo os dados divulgados pelo programa “Essencial”, da SIC Notícias, a 13 de março de 2026, mais de uma centena de pessoas morreu mensalmente associada a infeções hospitalares. Não há imagens de destroços, mas há sofrimento prolongado. Há internamentos que se arrastam. Há famílias cuja vida fica em suspenso. Há mortes que não podem ser recebidas com resignação.
Os dados europeus mais recentes obrigam-nos a olhar o problema de frente. No inquérito de prevalência pontual realizado em 2022-2023, Portugal apresentou 11,6% de doentes com pelo menos uma infeção associada aos cuidados de saúde, muito acima da mediana da União Europeia, fixada em 6,8%.
As infeções associadas aos cuidados de saúde, adquiridas durante o internamento ou na sequência dos cuidados prestados, são hoje um dos maiores desafios à segurança do doente e à qualidade dos cuidados.
As consequências são conhecidas. Aumento do tempo de internamento, aumento dos custos hospitalares, agravamento do sofrimento das pessoas e, em muitos casos, terminam em morte. Pneumonias associadas à ventilação, infeções da corrente sanguínea, infeções urinárias associadas a cateter vesical ou infeções do local cirúrgico são exemplos de complicações que, em muitos casos, poderiam e deveriam ser evitadas.
Há ainda um custo económico que não pode ser ignorado. Cada infeção hospitalar evitável não é apenas uma falha clínica: significa milhares de euros gastos em antibióticos, mais dias de internamento e recursos que poderiam salvar outras vidas. E importa dizê-lo com clareza: uma parte significativa destas infeções é evitável. A evidência mostra que programas eficazes de prevenção e controlo da infeção, higiene rigorosa das mãos, uso adequado de antibióticos e equipas de saúde adequadamente dimensionadas reduzem significativamente a sua ocorrência. O problema não é apenas clínico. É estrutural, organizacional e político.
Porque quando um avião cai, investigamos cada detalhe até perceber o que falhou. Nos hospitais, porém, continuamos demasiadas vezes a aceitar estas mortes como se fossem inevitáveis, como se fizessem parte do sistema.
Não fazem.
Cada infeção grave representa uma pessoa que entrou num hospital à procura de tratamento e saiu com uma complicação potencialmente evitável. Representa uma família que perdeu alguém a quem o sistema devia ter protegido.
Talvez esteja na altura de olhar para estes números com a mesma indignação que sentiríamos se estivéssemos perante um desastre aéreo, porque quando mais de uma centena de pessoas morre todos os meses associada a infeções hospitalares, não estamos perante uma fatalidade inevitável, estamos perante um problema de segurança do doente que exige a mesma urgência, a mesma transparência e a mesma determinação que qualquer catástrofe.
Cuidar em segurança é o mínimo que uma sociedade civilizada deve garantir a quem entra num hospital.