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Artigo de Opinião

Jornalista

7/05/2026 07:45

Crescer em Santana não era um postal ilustrado, desses que hoje se vendem com casas de colmo e flores à janela.

Era outra coisa. Era viver com o que havia - e, muitas vezes, com o que não havia também.

Hoje, ir à casa de banho é um gesto automático. Abre-se uma porta, acende-se a luz, roda-se uma torneira. Simples. Tão simples que já ninguém pensa nisso.

Mas nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que o saneamento básico não passava de uma ideia distante. O que havia era uma retrete ou latrina, como lhe chamavam. Um pequeno abrigo de madeira, afastado da casa, sem autoclismo, sem água canalizada, sem nada que se parecesse com o conforto de hoje.

Papel higiénico não existia. Usava-se o que estava mais à mão. E esse “à mão” era, muitas vezes, uma folha de “baraço” da aboboreira ou da pimpineleira. Não havia escolha, nem alternativa. Havia o hábito.

A retrete era construída, quase sempre, perto de uma levada. Não por acaso, mas por necessidade. De vez em quando, lá se fazia uma lavagem mais a sério, como se a água a correr levasse consigo aquilo que a vida não tinha como esconder.

Também não havia lavatórios. Nem pias. Nem água a sair da parede. A água vinha de longe, da fonte mais próxima, fosse pública ou de nascente. Transportada em baldes, em vasos, equilibrada com esforço e paciência.

Era essa mesma água que servia para tudo: cozinhar, lavar a loiça, cuidar da higiene. Nada se desperdiçava. Nada era fácil.

E, no meio disso tudo, vivia-se.

Naquele tempo, não se falava de conforto. Falava-se de desenrasque.

As casas eram frias, o chão duro, e a casa de banho... muitas vezes era apenas o quintal, um canto mais resguardado, uma latada que servia para mais do que dar sombra. Havia um saber antigo, silencioso, que não se ensinava, aprendia-se a ver, a fazer, a repetir.

Lembro-me de coisas que hoje parecem quase impossíveis de explicar sem um sorriso. As mulheres, de saias compridas, sabiam como se ajeitar sem cerimónias. Atrás da casa, num canto mais escondido, faziam as suas necessidades de pé, com uma destreza que não se aprendia, nascia com elas. Não havia constrangimento. Não havia explicações. Era assim que se vivia.

E não, não era falta de dignidade.

Era dignidade sem precisar de nome.

Havia um respeito profundo pelo que era necessário. Ninguém fazia disso assunto. Ninguém dramatizava. A vida seguia, com as mãos ocupadas e o tempo contado.

Hoje temos casas de banho em cada canto da casa, água quente à distância de um gesto, conforto que quase nem questionamos.

E, ainda assim, parece que nos incomodamos com tudo.

Naquele tempo, não se tinha muito, mas sabia-se viver com o pouco. E havia um certo orgulho em saber fazer muito... com quase nada.

E talvez seja isso que custa admitir.

É que, no meio de tantas faltas, havia uma liberdade que hoje se perdeu.

A liberdade de não complicar.

Crescer em Santana foi isso. Não foi perfeito, nem fácil, nem romântico como agora gostam de pintar.

Mas era verdadeiro.

E talvez por isso, quando hoje olho para trás, vejo muita pobreza e alguma miséria, mas também vejo gente que apesar de tudo sabia viver.

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