Há uma diferença profunda entre governar tecnicamente e governar politicamente. E essa diferença, tantas vezes ignorada nas democracias contemporâneas, ajuda a explicar porque alguns governos administram o presente, mas falham em construir o futuro.
O último governo de Aníbal Cavaco Silva, já na fase final do cavaquismo entre 1993 e 1995, tornou-se paradigmático nesse aspecto. Após mais de uma década no poder, o desgaste político era inevitável. Cavaco centralizava fortemente a decisão em São Bento, exercendo uma liderança orientada para resultados técnicos, económicos e infraestruturais. Criou-se a imagem dum governo “tecnocrata” e de Secretários de Estado. Muitos ministros foram substituídos por perfis académicos ou técnicos, frequentemente promovidos a partir de secretarias de Estado ou de posições da chamada “sociedade civil”. O problema é que esses quadros, embora competentes tecnicamente, não tinham densidade política, nem experiência de combate político, nem visão estratégica de representação.
E o resultado conhecemo-lo: erosão do cavaquismo e décadas de hegemonia socialista.
Curiosamente, esta desvalorização do político profissional contrasta com a visão da Antiguidade Clássica. Na Grécia Antiga, a política era considerada a mais nobre das atividades humanas. Aristóteles definia o homem como zoon politikon: um animal político cuja realização plena acontecia na pólis, através da participação cívica e da procura do bem comum. A política não era vista como oportunismo ou carreira; era virtude, dever e realização humana. Participar na vida pública era um ato de honra.
Hoje sucede precisamente o contrário. O conceito de “político de carreira” ganhou um ónus quase pejorativo. O técnico passou a ser visto como puro, neutro e racional, enquanto o político é frequentemente retratado como calculista ou interesseiro. Mas essa visão simplista ignora uma evidência fundamental: um técnico executa; um político decide.
E decidir implica muito mais do que aplicar conhecimento técnico. Implica visão, coragem, capacidade de mobilização, leitura social, perceção histórica e legitimidade democrática. Um técnico é indispensável em funções técnicas. Um político não deve ocupar lugares altamente especializados sem preparação adequada. Mas o inverso também é verdade: cargos de decisão política exigem competências políticas.
Foi precisamente isso que Miguel Albuquerque afirmou, com acerto, no recente congresso do PSD Madeira. Albuquerque recordou que “à política o que é da política”, assumindo sem complexos a dignidade da atividade política. Tal como o fez, noutra geração, Mário Soares, recusando a ideia de que ser político é motivo de vergonha.
E Albuquerque tem razão quando afirma que não quer técnicos em lugares de decisão política. Porque governar não é apenas gerir. É escolher prioridades, assumir riscos, contrariar o estabelecido, reformar estruturas e encontrar soluções novas. Isso exige coragem programática, algo que dificilmente nasce da lógica prudencial e procedimental do técnico.
Mas há também um risco que o albuquerquismo deve evitar: repetir o erro do último cavaquismo. É compreensível que, quando surge uma vaga num cargo político de topo, se promova quem está imediatamente abaixo, normalmente no topo da carreira técnica ou administrativa. Parece a solução mais natural e segura. É alguém que conhece os dossiers. Contudo, a experiência mostra que essa transição automática raramente produz bons resultados políticos.
Porque competência técnica não equivale a liderança política. Porque decidir politicamente não é a simples gestão do que existe.
O cavaquismo ensinou-nos isso da forma mais dura. Quando a política perde densidade política, abre espaço ao vazio, à fadiga e à derrota. E as consequências podem durar décadas.