Dizem que a primavera começa em março. Como se a vida obedecesse ao calendário. Como se o florescimento tivesse hora marcada, como se todas as árvores rebentassem no mesmo dia, sob a mesma luz.
Mas há árvores que esperam abril. E há mulheres que esperam décadas.
Crescemos a ouvir que existe um tempo certo para tudo: para amar, para casar, para publicar um livro, para ter filhos, para saber quem se é. A primavera, dizem-nos, é cedo. É verde. É promessa. Pouco se fala das primaveras tardias, aquelas que chegam depois de longos invernos, depois de silêncios, depois de perdas.
Penso em Agustina Bessa-Luís e na forma como nunca pareceu pedir autorização à estação. Não floresceu para agradar, nem para caber. Tornou-se árvore inteira, mesmo quando o terreno era adverso. Há mulheres assim: não esperam que o mundo esteja pronto. Escrevem-se.
Depois há Lídia Jorge, que tantas vezes nos mostra mulheres em deslocação, entre passado e presente, entre o que foram e o que ainda podem ser. A maturidade, nos seus livros, não é declínio: é território. É o lugar onde a consciência se instala, mesmo que doa. Talvez florescer tarde seja isso: ganhar raiz.
Em Ana Margarida de Carvalho encontro personagens femininas que não se oferecem como superfície. São densas, ambíguas, atravessadas por sombra. Não há nelas a leveza decorativa que tantas vezes se espera das mulheres. Há complexidade. E a complexidade também é uma forma de floração.
E se penso nas mais jovens, vejo um bouquet que se abre agora, com a delicadeza de quem não pede palco, mas presença: Filipa Mota Nesbitt, Elisabete Martins de Oliveira, Catarina Rodrigues. Escritas que crescem sem pressa, que sabem que a literatura não é corrida de cem metros. São flores que não competem com a estação; ampliam-na.
Talvez a primavera feminina não tenha data fixa. Talvez aconteça quando uma mulher decide que já não viverá segundo o relógio dos outros. Quando aceita que o seu corpo, a sua obra, o seu amor e a sua espera têm ritmo próprio.
Há quem floresça aos vinte. Há quem só encontre a sua estação aos quarenta, ou depois de uma queda, ou depois de um luto. Há quem decida ser feliz aos cinquenta. Há quem se encha de coragem aos setenta. E isso não é atraso. É maturação.
A natureza ensina-nos que o que demora nem sempre está perdido. Às vezes, está apenas a ganhar força debaixo da terra. Nem todas as mulheres florescem na estação esperada. Algumas inventam a sua própria primavera.