Lembra-se daquele colega que chegava sempre atrasado às aulas? Falhava sistematicamente o horário de entrada, apresentando depois explicações inventivas e até bem-dispostas. Ora era isto, ora era aquilo, até que chegava o momento em que as justificações deixavam de servir, porque perdiam eficácia.
Esse colega faz lembrar a Europa. E o momento da perda de eficácia das desculpas esfarrapadas, no caso do projeto europeu, já chegou há muito.
Perante um mundo em ebulição, o projeto europeu revela-se lento, hesitante e, regra geral, incapaz de antecipar crises que são tudo menos imprevisíveis. A guerra está há muito no centro da atualidade internacional, os discursos endureceram (alguns roçam a infantilidade de quem não devia assumir funções de liderança) e os riscos multiplicam-se. Ainda assim, a resposta europeia permanece difusa, fragmentada, reveladora de falta de estratégia.
Fala-se de paz, mas toleram-se dinâmicas que a colocam em causa. Condenam-se intenções, mas raramente se travam ou se condenam ações.
Também no plano económico, a história repete-se. A inflação não surgiu de surpresa. Era visível, previsível, anunciada, quase ‘lapalissiana’. No entanto, a Europa optou por assistir à sua escalada à distância, reagindo apenas quando o impacto já se fazia sentir de forma brutal no bolso dos cidadãos e na estabilidade das economias. Mais uma vez, chegou tarde. E chegar tarde, nestes casos, paga-se caro, sobretudo para quem vive sem margem para suportar o aumento do custo de vida.
Portugal, por exemplo, continua à espera de perceber se a subida dos preços da energia será estrutural para traçar planos mais consistentes. Esquecem-se os governantes de que quem já está a pagar a fatura, muitas vezes, já não tem forma de o fazer.
Mas este padrão de hesitação não é exclusivo das grandes instâncias europeias. Também a nível presidencial encontramos sinais preocupantes que acentuam o desgaste institucional.
O impasse em torno do sucessor de Ireneu Barreto vem expor fragilidades que não deviam existir num cargo desta natureza. Um processo arrastado, previsível no desfecho, mas ainda assim prolongado no tempo, contribui para a erosão da credibilidade institucional.
É verdade que houve segunda volta. Mas também é verdade que, quando o resultado é antecipadamente conhecido, a demora deixa de ser um exercício democrático e de recato institucional, passando a ser um sinal de bloqueio. E os bloqueios, sobretudo nos cargos de representação máxima, têm um custo, o da desconfiança pública.
Num tempo em que se exige clareza, rapidez e liderança, tanto a Europa como diferentes instituições parecem presas a um ritmo que já não acompanha a realidade.
Porque, no fim, o maior risco não é chegar atrasado. É deixar de chegar a tempo de fazer a diferença, seja na intermediação da Autonomia das ilhas, seja no contexto internacional em que a guerra não pode tornar-se uma realidade vulgar.