A Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Brentonwood Park, Benoni, acolheu, no passado domingo, 24 de setembro, a cerimónia de investidura de Padre Carlos Gabriel, com o título de Monsenhor, um título eclesiástico de homenagem, reconhecimento e honra conferido pelo Papa Francisco por serviços prestados à Igreja Católica.
Carlos Gabriel foi reconhecido especialmente pelos serviços prestados entre muitos outros quando reitor da mais antiga igreja portuguesa da África do Sul, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (INSF) em Brentwood Park, Benoni, onde permaneceu de 1996 a 2017 e local que desempenhou para além das funções eclesiásticas, devido a um conjunto de circunstancias trágicas e dolorosas para a comunidade, evidenciou-se publicamente contra a violência criminal louca e desenfreada que atingia a comunidade a oriente, norte, sul e ocidente do país, especialmente, agricultores e comerciantes portugueses.
Para além do seu trabalho pastoral foi líder pastoral que acompanhou as famílias numa transe lutuosa, valendo-lhes uma tão necessitada assistência espiritual e de conforto enquanto as autoridades portuguesas mantinham um silencio conformista, revoltante e acusável, tornando-se assim a voz da comunidade perante as autoridades policiais da África do Sul, substituindo, o Estado português. Foi a voz dos sem voz, e os seus atos, deverão ser levados em consideração no contexto sul africano daquela altura devido aos ataques mortais infligidos a pessoas indefesas a quem os agentes da violência criminal interromperam a suas vidas, lançando em situações deveras dramáticas, de muito desespero esposas, mães, filhos filhas e outros familiares.
Foi este sacerdote a face da marcha de protesto contra o crime em 15 de novembro de 2000 que congregou uma multidão de diferentes raças, credos e nacionalidades e ainda as pessoas que as suas famílias foram atingidas pela violência criminal, viajando de todas as partes do país, de muito longe, para manifestarem o seu repúdio à criminalidade que envolveu o país.
Ouviram-se "Viva a África do Sul", e nos cartazes podiam ler-se "Porras against crime" (porras contra o crime), enquanto num outro se lia "Enough is Enough" (já chega, já chega) onde eram também notórias faces tristes, chorosas e revoltadas.
A marcha encabeçada pelo sacerdote acabou por resultar numa nítida suavização do número de ataques e vítimas à comunidade. Para o sempre atento arcebispo diocesano, Buti Joseph Tihagale, as ações do sacerdote português conjugadas com a atividade eclesiástica não passaram despercebidas.
Na cerimónia de investidura durante a celebração da santa missa com Eucaristia, presidida pelo Arcebispo numa igreja apinhada de fiéis, houve um momento de evocação destes factos junto ao monumento erigido à memória das vítimas da violência criminal, que, atualmente, excede meio milhar de vítimas - a sua maioria madeirenses - e onde estão apostas fotografias esmaltadas dessas mesmas vítimas. Carlos Gabriel agradeceu de forma comovida todo o apoio dado pela comunidade e os encómios do Arcebispo Tiahagale e de outras figuras eclesiásticas presentes na investidura.
Presente neste evento, Ricardo Taveira Rodrigues, primeiro secretário da Embaixada de Portugal, em representação do embaixador de Portugal na África do Sul o qual apresentou felicitações ao novo Monsenhor que em ato contínuo expressou a sua gratidão.
Abordado pelo JM que se pronunciasse o que representa para ele e para a congregação a que pertence, Monsenhor Carlos Gabriel, respondeu que é um título, um reconhecimento de um trabalho persistente e duro, um trabalho arrojado que apesar de todas "as ratoeiras" conseguimos levar a bom termo e, eu fui o autor da iniciativa (marcha) e tive muitos apoiantes e a comissão que está aqui presente hoje. Sem eles nada conseguiria e só assim levei a iniciativa a bom termo. Apesar de se encontrar em Londres, fez questão de deixar uma mensagem para a comunidade que diz se sentir sempre muito próximo e a guarda no coração.
A minha mensagem é a de uma grande admiração pela resiliência, pela determinação em permanecer e continuar a trabalhar na África do Sul, enfrentando todos os perigos da criminalidade, roubos, violência e morte, só posso deixar uma mensagem de encorajamento para levarem a bom termo as suas vidas.
Quanto à presença do primeiro secretário da embaixada perguntado disse que lamenta não ter feito qualquer referência a ele, desconhecia a sua presença, não o podia nomear, não sabia quem era, mas é de facto um sinal positivo a sua presença aqui, neste dia.
José Luiz da Silva, correspondente em Joanesburgo (África do Sul)